O FUNCIONÁRIO DO MÊS

O ponto alto da carreira em uma grande corporação não são os copiosos salários, nem mesmo as festas de fim de ano regadas a champanhe e flertes honestos. A máxima vantagem de ser um funcionário das gigantes é pouco abordada por profissionais de recursos humanos e professores de primeiro período: trata-se do livre e anônimo trânsito entre os corredores climatizados, o prazer de andar por aí sem que ninguém te reconheça.
Esse poder da invisibilidade confere ao indivíduo uma escolha simples: ser de fato anônimo, todos os dias, uma espécie de atum em franca circulação inútil pelos corredores, aguardando pelo horário da saída, esquivo e ponto. Ou fazer o que bem entender: vender e comprar ideias, fingir que sabe, ganhar aumentos por fingir, mais ainda por saber fingir bem, impressionar e assustar pelos cantos, sem se importar muito com o vão pensar, afinal, passando de uns dois metros da sua cadeira, ninguém te conhece. Sim, foi-se o tempo das baias. Hoje, vivemos a era do que eles gostam de chamar de “escritórios horizontais”, gigantescos quilômetros quadrados em que você consegue literalmente ver mais de cem cabeças ao mesmo tempo. Essa ideia não mudou grandes coisas no carinho multinacional. A única diferença é que agora existe um rosto mais nítido cujo nome não se conhece. Mas o encontro, meses depois, numa palestra de recolocação profissional, inicia-se com o mesmo franzir de sobrancelhas e o apertar de olhos de quem aponta um indicador para a outra pessoa, constrangidamente.
Eu acho que o Medeiros – eu chutaria que tenha sido ele, é um dos poucos nominais aqui dentro – tinha pleno conhecimento de tudo isso quando, numa tarde qualquer e num tom amigável, cruzou o caminho do camarada que se vestiu só com folhas no sexo, na festa da meta do mês passado: “E aquele trabalho, hein, Adãozão, preciso dele pronto, hein!”, e talvez o próprio Adão tivesse também conhecimento das etiquetas, tal que, uns dois andares abaixo, avistando a Gola Rolê do quinto andar, deu-lhe um tapinha, quisera eu que cinquentista, e transmitiu: “Ô, minha linda, cê sabe que ainda tão me cobrando aquele lance que eu te pedi, né? Não me leve a mal, mas é que eu não tenho interesse em ficar em cima de você”, rindo, e o sorriso amarelo dela não poderia ser considerado culpado pela refração que o pedido sofreu na direção do Adolfo – o Adolfo do “É Edolfo, pessoal” –, que deve ter sido o pivô do telefone sem fio que culminou na minha mesa: “Você é o cara pra matar isso aqui.”. Soltei o ar como se fosse domingo, muito mais um hábito do que uma demonstração de sentimentos. Mas, afinal, era chegada a minha hora e eu não desejava decepcionar.
Ninguém nunca me conhecera ali dentro, até o dia em que eu cumpri cum laude esta missão que me fora incumbida naquela grande família. Ela, sim, ela, a minha maior conquista na firma, quiçá, na minha vida neste planeta, que um dia há de comer minha carne que já fora de atum. Eu tomei para mim a tarefa como especial, embora ninguém, em qualquer momento da cadeia, houvesse a definido como qualquer coisa além de ordinária. Simplesmente entendi certa a ideia de tratar aquele pequeno detalhe como vida ou morte, como se o balanço do magnetismo terrestre e mesmo o fim da fome na África dependessem em algum nível do que eu faria. Não é isso que eles chamam de proatividade? Ou é só mesmo desejo de se sentir importante. Eu não sei o que é que nos leva a querer impressionar a quem detestamos, mas é algo que eu carrego comigo desde os tempos de colégio. Uma mania imbecil de querer se imaginar grandes coisas ao olhar dos outros, mesmo quem você gostaria que nem cruzasse sua vista. A única distinção clara que consigo fazer entre os tempos de escola e os tempos de escritório é o fato de que agora eu é que sou pago para aguentar a infantilidade alheia, substituindo os professores que durante anos aguentaram a minha. Mesmo com toda adversidade sentimentalista possível, o ser humano precisa conquistar seu lugar nessa vida, e aquela realização faria de mim, uma vez por todas, um rosto para aquele imenso cardume de imbecis engravatados.
Os dias que se seguiram à recepção daquela tarefa foram de intenso estudo e manutenção da sanidade. Nada muito diferente dos últimos anos, com a diferença de que era realmente impossível prever o que seria da minha vida caso meus planos dessem errado – e mais ainda se dessem certo. Eu passei por todas as fases que eu imagino que os gênios encarem de frente, quando mergulhados em um processo criativo, vivi mesmo de tudo um pouco. Talvez eu mesmo possa admitir que levei a coisa um pouco longe demais, não sei se por romantismo ou por realismo mesmo. Me afastei um pouco de certos amigos, não atendia ligações depois de escurecer – o que nem foi lá tão ridículo da minha parte, era horário de verão –, dormia e acordava em horários esquisitos e até mesmo deixei de frequentar o estádio às noites de quarta, um dos meus programas favoritos. Mergulhado em minha ambição, fiz eu mesmo o tempo voar e fiz de mim um monge encaminhado à única fatia de destino que lhe era de fato merecida: a grandiosidade.
Era chegado o grande dia e eu estava num baita bom humor, ridículo. Na verdade, estava numa alta desde a noite anterior, quando percebi que estava inteiramente preparado. Nada conseguia estragar meu penteado, nem aquelas provocações insistentes que a vida faz conosco, colocando à prova nossa vontade de ganhar um salário por cada dia de trabalho. Naquela manhã mesmo, o bafo matinal de Apolo era daqueles que esquentam a janela do ônibus à temperatura de ebulição, impossibilitando que você durma a caminho do escritório sem suar na virilha, especialmente nessas minhocas novas que são esses ônibus da capital, com um ar condicionado que só funciona na frente e aqueles assentos do fundo que ficam em cima do motor e são infernais. Mas não, nem esse tipo de provocação incomodava. O café da manhã fora reforçado, meticulosamente planejado para auxiliar em toda a fisiologia envolvida na minha entrega. Você sabe, o corpo pede, o corpo trabalha, o corpo cansa. Mas, acima de tudo, o corpo deve viver a jornada.
Não me permiti passar as primeiras horas do turno ansioso, o que seria perfeitamente justificável, convenhamos. Justificável, porém inútil. Afinal, tudo o que dependia de mim já estava efetivamente colocado em seu lugar, eu já havia me preparado, até mesmo ensaiado linguagem corporal e a melhor forma de finalizar a apresentação. Não havia hora marcada, mas eu tinha plena noção de que o melhor horário para capturar o Hamilton, chefe do meu departamento, era um pouco antes do almoço, momento em que ele tirava uns quinze minutos para ficar procurando bijuteria online sabe deus para quem.
Algumas voltas no relógio e algumas boas fingidas se passaram. Perto do meio-dia, meu corpo emitia seus ruídos, conversando comigo e me inclinando a crer que o grande momento se aproximava. E, mais uma vez, você sabe, quando isso vem, é mais do querer ir, é precisar ir.
Antes de chegar até o Hamilton e chancelar a missão que faria de mim um ícone na corporação, optei por uma larga xícara daquilo a que carinhosamente chamam de café naquele escritório. Eles deviam é colocar um aviso de tinta fresca na parede acima da garrafa térmica. O lance é que o Cabral não pode me ver na cafeteira, que ele já quer papo, e, naquele dia, eu não estava para conversa, eu estava para deixar a minha marca. Virei o café como um shot de uma pinga qualquer, menos por protocolo do que para ser rápido e pular as papilas gustativas. Desconfio que tenha queimado alguma parte do meu esôfago naquele segundo. Quase gritei, mas foi um sacrifício necessário para evitar a distração quase profissional do Cabral, que, inclusive, deveria ser pago para não deixar ninguém trabalhar.
Retirei-me da cafeteira com uma calma mentirosa e atriz. Qualquer um que me encarasse naquele instante jamais poderia ter a mais vaga ideia das horas que passei em preparação feroz para aquele momento, sonhando, suando na cama, perguntando a mim e aos meus deuses o que fazer, que caminho escolher, por onde ir. Meus passos lépidos e serenos não entregavam o escarcéu alucinante que os meus neurônios e o meu sistema digestivo lideravam dentro do meu corpo. A minha certeza nunca fora maior, tampouco o meu incômodo. Eu já suava frio, temeroso de que não fosse dar tempo de chegar ao Hamilton, mas fui capaz de manter a paz interior. É nessas horas que vemos que a mente controla de fato o corpo e o espírito. O Hamilton, mais do que ninguém, merecia aquela entrega, e merecia com primazia. Segurei-me o máximo que pude antes de começar a trotar rumo a sua mesa. Era chegada a grande hora.
Como um soldado que salta do chão a um helicóptero segundos antes de uma bala, pulei com os dois pés ao mesmo tempo. Nessa subida, já dei, sem querer, um bico na cara da Helena, a estagiária lá da contabilidade. Nem me abalei. Ereto, abri o zíper e concluí, em frações de segundo, que tem algo que eles não avisam na bula: o efeito é mais repentino do que se imagina. Eles só avisam quantas horas deve demorar. Assim, não deu tempo de descer totalmente a calça, tive que agachar com ela um pouco acima do joelho.
Desceu melada, num estado digno de uma análise do MIT ou coisa que o valha. Foi fúnebre, mas não se engane, foi estratégica: distribuída uniformemente sobre a mesa do Hamilton, pintando um lúgubre quadro conceitual e bizarro, abordando a relação entre tons harmonizantes de cores fechadas. Olhei ao redor, em busca da cartada final, muito mais voltada ao meu bem-estar do que à performance em si. Consegui encontrar um guardanapinho debaixo do copo da Starbucks do auxiliar do Hamilton. Dei uma molhadela no café velho, assoprei, e dei uma passada no meio das nádegas, de forma a umedecer e lubrificar um pouco a região; desde pequeno, sempre tive problemas com assaduras.

DIA DE PESCA

Quando certa tarde o pescador acordou de sonhos saudosos, encontrou-se na rede no mesmo estado em que deitara, com as costas ainda cansadas. Demorou-se mais alguns segundos de preguiça para levantar-se e perguntar: “Que horas, Josia?” Como não houvesse relógio ao alcance, Josias esticou o pescoço para fora do toldo: “Vai dando o fim da tarde, seu Manel. É hora do senhô ir, antes que a dona Val começa a ralhar lá da ilha.” “É bom que eu vô mesmo, antes que as orêlha esquenta.”.
Naquele dia, desde a madrugada que anunciava mais um leão, sentia uma sede constante, que não havia copo d’água ou dose de pinga que matasse. “A muié deve de tá botando é sal nessa comida”, concluía, sem deixar de se irritar com a secura incontrolável. Passara todas as horas do dia lambendo os beiços, a língua com vida própria, sentindo a garganta arranhando e o espírito agitado.
O pescador ia para o continente de dois em dois dias, vender o que houvesse a se vender, que tivesse sido fruto de trabalho na ilha. De quando em vez era artesanato, de quando em vez agricultura, mas o mais comum era vender pescados para os donos de atacado lá da cidade. Quando se dava por satisfeito, almoçava fria a marmita que a mulher preparava ainda na alvorada e tirava uma sesta na rede pendurada entre duas palmeiras nos fundos da barraca de Josias, para depois pegar seu barquinho e tomar a rota de volta à casinha na ilha.
O caiçara, em muitos termos, não passa de um caipira do litoral. Pau a pique, sapê, farinha, pirão, café, colônia, rapadura, tudo na panela de barro. Terra batida e despreocupação com o tilintar das horas, horas que o sol mesmo indica. Talvez a grande diferença seja a natureza da adoração; enquanto o caipira se devota à terra e a uma santa milagreira ou parteira, o caiçara inexiste sem sua paixão e respeito ao oceano e seus deuses. Também são fruto dos abusos dos ibéricos e das instituições que deles nasceram, como é destino brasileiro, mas foram encontrados, utilizados e abandonados antes dos moradores do interior. Assim, foi sobrando o artesanato, a subsistência, a pesca e, com as ondas do tempo, o turismo das ecologias da região, este menos pertencente aos caiçaras, que se tornaram, eles também, alguma sorte de atração.
Antes de embarcar, o pescador mirou distante o arquipélago da esquerda à direita, de onde até onde seu pescoço alcançava. “Num mudúm tico esse lugá abençoado”, coçando o peito parrudo, “Não que dê pra nóis vê no tempo que Deus dá. Que benção que é época de tempo quente, pescada boa só que sai.” A tarde tardando a tornar tudo tão turvo que não se toma direção qualquer senão a da cama ou do sexo e da rede, mais que na época de tempo frio, em que os dias são curtos de luz e a areia fica molhada também longe do beijo do mar.
Jogou as sobras de venda dentro do barquinho e ligou o motor. Em reflexo inconsciente, meteu as mãos nos bolsos da calça de pano para esvaziá-los antes de bater de frente com água. Deu de cara com um bilhete da mulher, pedindo que trouxesse óleo de dendê para a ilha, para que pudesse preparar as moquecas que os trabalhadores da companhia elétrica encomendavam. Ela fez o pedido no instante em que ele se despediu, no início do dia, mas as palavras sumiram pelos ares. Já sabia o que iria ouvir: “Hômi, a tua cabeça tá ficando ruim, tá ficando com a memória ruim igual que teu pai.” Depois de tantos anos, já não se irritava mais com as palavras da mulher, mas naquela tarde sentiu um calor atípico no rosto ao imaginar o discurso.
Lembrou-se novamente atacado pela sede, cada vez mais intensa. Sentia os lábios rachados, passou a mão na boca e viu um pó branco nos dedos. Como não era homem de se assustar, tocou viagem, lambendo incontrolavelmente as palmas, sentindo agora seu corpo ter leves espasmos aleatórios, com um gosto esquisito de sal na boca, vontade de beber toda a água do oceano ao redor, sabendo que ia se derrubar na pinga assim que pisasse em terra.
 Era com frequência que tinha pensamentos característicos de quem envelhece, tomando implicância com a juventude: “Esses barco tudo com motô, qualquer muleque pilota. Queria ver esses muleque no tempo em que era no braço e na vela, c’uas jangada do pai. Quanta tempestade num peguei, viu…” E tacou-se ao mar.
O fim da tarde começava a desenhar os vitrais característicos dos dias ensolarados. É verdade que eram raros esses desenhos, porque no verão a tendência era que as nuvens fossem se acumulando por cima da ilha durante o dia, formando o cinza dos céus carregados das últimas horas de luz, que traziam chuva grossa e rápida, rasteira e gritante, regando as almas dos seres insulanos e das plantas irracionais. Naquela tarde, contudo, os vitrais iam anunciando o sagrado da noite, a bênção da luz colorida do astro-rei, aquele branco que ia formando a matiz que bem entendesse durante o dia. O pescador jurava já ter visto tudo quanto é tipo de cor naqueles céus e naqueles mares, mas isso era história talvez para a gente do continente se maravilhar e não achar que a vida na ilha era só marasmo e pobreza e descanso cinza sob as amendoeiras. Ia deslizando pelas águas, lépido e servente a Iemanjá, sorvendo dos ventos que lhe sorriam na proa, bem na fronte enrugada.
Pensava sempre no pai quando viajava sozinho pelo mar. No início, eram memórias inevitáveis que o iam visitando, desenhos que vinham e saíam dos pulmões. O patriarca desaparecera de forma misteriosa, num dia simples e colorido, sem tempestades, sem ameaça de fome, falta de provimentos, nada. E o pescador remoía a história, procurando sinais e explicações, buscando pelas décadas. Tinha sempre as mesmas noções perfeitas em mente: primeiro, sabia que a relação com a mãe era boa, o casal se amava e gozava da vida como ela deveria ser. Além disso, confiava que o velho se orgulhava da estirpe, da descendência e da ascendência. Portanto, conhecendo apenas aquelas duas ideias e enxergando apenas ilha e cidade, não conseguia conceber uma solução para o problema. E é esse o tipo de caso mais curioso à mente humana. Aqueles pensamentos em círculo, sem solução, que tanto doem ao coração, mas dos quais a cabeça não se desapega, sabe deus por quê. E o bicho fica repensando, como se fosse chegar a uma nova ideia, embora não tome novos caminhos.
Tentava se distrair cantando, como de costume. Ia relembrando as cantigas que aprendera com a mãe e que repassara aos filhos, as cantigas do Rei Sebastião, o Desejado. Cantarolava e se emocionava, um pouco sem compreender os sentimentos que batiam no peito naquele dia. Afinal, o barco quicava no sal do mar como de costume, aos resquícios de sol reservava o mesmo respeito de sempre, um respeito que jamais fora requisitado. As ilhas ao redor seguiam verdes, famintas de tempo, travando com a erosão as batalhas que a própria Terra criara para si. O pescador sabia, então, que era dentro dele que algo se havia alterado. Se os mares ondulavam do mesmo jeito de sempre, eram só o sentimentalismo exacerbado e o arranhar infindável da garganta que eram ali novos e inexplicáveis. Porque a natureza, ele sabia, “tem as explicação de Deus”.
Não existe real diferenciação na forma de sentir dos seres humanos, barrigas cheias e vazias são os mesmos tecidos. Exceto que a um cabe um acervo de vocabulário e um merecimento de grandiosidade, a outro cabe um limitado acesso às descrições. Uma cabeça que martela, outra que é martelada. Mas, no fundo do coração, os homens são as mesmas dores. E se a um faz sentido descrever de um jeito, enquanto a outro a capacidade de descrição nem chega, isso significa que talvez um se expresse demais e o outro se expresse melhor. Ora, também o caiçara tem suas utopias, seus ideais de realidade. Talvez neles o sol brilhe de um jeito justo, a pele marcada tenha suas devidas recompensas, recompensas que nem o caiçara mesmo queria, mas que, pelo mínimo contato com a cidade, aprendeu a querer. Ao pescador, no fim dos dias, ficam palavras como a saudade, o único sentimento universal a todo brasileiro, preguiçoso ou trabalhador. A saudade não tem descrição extensa e não tem poesia que explique do jeito certo. A saudade só bate. Às vezes no peito, às vezes, como naquele dia, no rosto e nos lábios secos, como as pancadas do barco n’água. E batia ali no pescador e trazia consigo algumas lembranças do tempo das tainhas com seu pai, tantas festas na época dos santos certos, lembrou-se do tempo em que, volta e meia, viajavam à restinga, para esperar a água subir e descer e denunciar caranguejo quando a terra ainda era livre de feridas irreparáveis. Tinha épocas de se meter no mangue, de um jeito que só homem bravio e inteligente consegue, traçando caminho por meio de mapas mentais que se construíam ao longo de muitos anos observando e vivenciando o bioma. Homens da cidade, alguns estudiosos que resolviam aparecer, ficavam em choque com a maneira intuitiva de se relacionar com a terra, superior aos estudos de qualquer biólogo ou acadêmico. “O caiçara não se relaciona com natureza. Ele é a própria”, escrevera um doutor em seus tratados deliberados após semanas de convivência com o pescador, ainda na época que era criança e era seu pai quem picava o mangue, o mar e, sem escolha, a cidade grande, lá onde a terra batida tinha virado pedra. Também o caiçara machuca a terra e a água, mas “Machuca de jeito que cura dipois se ninguém mexê”, o pescador se consolava, sabendo que à natureza eles ofereciam o tempo de se restituir. “O caiçara trabalha no tempo de Deus.” Ele sabia que a especulação imobiliária ia comer as águas todas da região, pouco a pouco, cerceando a natureza e individualizando o que deveria ser direito divino de todos. Mas ele mesmo balanceava a equação, humilde: “Um dia o homi caiçara também invadiu. Nós que samo preto, índio, português, o diabo tudo… nóis num era dono dissaqui. E se num for pá dizê que vai tudo voltá pros que era primeiro dono, o Senhor e seus primeiro filho, então samo tudo nóis invasô das terra e dos mar e do mundo interin.”
O pescador estava cada vez mais perto da ilha e sentia-se cada vez mais tonto. Era a tristeza da saudade que deixava o corpo mole, mais mole que depois de almoço farto. Saudade do pai, saudade das tainhas se balançando, saudade de olhar a cidade lá de longe e ver nada, só linhas e curvas sem sentido. Saudade da praia vaga, os pensamentos dispersos na infinita faixa de areia, velha conhecida sua. A tontura ia se alargando, o coração girando. Sentia uma doença tomando seu corpo, aquela que começara junto com a madrugada, mas que agora ia tomando contornos mais firmes. Ele sentia os sintomas desde o início do dia, mas se convencia de que havia sido atacado repentinamente, orgulhoso. Seu rosto havia como que emagrecido, estava chupado e rígido, como um velho livro molhado sob o sol de dias. Lambia os lábios sem parar, de forma paranoica, tenaz e inútil. Os espasmos de seu corpo não cessavam. Sentia os pensamentos escorregadios, nada ficava na cabeça. Tentava pensar na mulher, a mulher escapava. Tentava pensar nos filhos, os filhos escapavam. Sentia fome, a fome ficava. De resto, nada sentava por mais do que alguns segundos na mente. Sua última ideia sã e racional foi desligar o motor. Conseguiu, com certa dificuldade, até que sentiu sua mão escorregando da máquina. E seu corpo escorregadio também.
Ficou o barco flutuando no planeta, à deriva. E o pescoço do pescador se agitava com vida própria, e o pescador flutuava também, porque não mandava mais no barco. O mar ainda era misterioso, mas ele queria mergulhar fundo e ser servo das ondas. Era ali puntiforme, um corpo e uns cascos de madeira flutuando sobre o empuxo das águas coloridas.
Mudo, olhou para a ilha. Muda, ela o sentenciou.
O pescador ajoelhou-se, deslizando. Apoiou-se na borda do barco e conferiu seu reflexo nas águas do Atlântico. Não se assustou. Teve um último suspiro de saudade e viu-se despedido de condições narcísicas, que sempre foram poucas, e da capacidade de conjecturar pensamentos. Aguardou mais alguns segundos. Quando suas escamas se cristalizaram e finalmente possuía mais um par de guelras, estatelou-se no chão. Chacoalhando-se burro, levou um tempo até que conseguisse dar um salto acidental e cair dentro d’água.
Nadou horizonte adentro, rumo ao inatingível ponto de contato entre o céu laranja e o mar alaranjado.

O SENHOR MAURO DAS JUSTAS CAUSAS

As crianças de hoje que acreditem se quiserem, mas já houve uma época em que nem tudo era digitalizado, eletrônico, brilhante, e que nada era mais sensível ao toque do que um par de gente em boa conversa. Tudo bem, eu compreendo, já houve tempo também em que era difícil para nós, os verdadeiros ingênuos, compreender que havia vida antes e depois da nossa passagem, isso faz parte. Eu levemente tenho a impressão, todavia, de que a pornografia era mais saudável naquela época, em que as coisas eram mais estáticas e, portanto, a imaginação ocupava dois terços do caminho e a violência era fora de questão a quem não a conhecesse a olhos nus. Ainda assim, já naquele tempo, e, quem sabe, principalmente nele, os homens sublimavam as próprias figuras desde cedo e acreditavam no exercício da submissão feminina, de forma que me questiono quem veio antes, o ovo ou as galinhas. Bom, onde ia eu, os jornais, certo? Se as crianças de hoje quiserem acreditar, então poderão sentir o deleite de conhecer a história dos condenáveis feitos de um brasileiro de regular estatura. Como homem da lei, não seu dono, mas, variavelmente, tendo sua posse, possuo interesse pessoal em certas memórias, devo dizer. É verdade que já lá não se deve acreditar muito no que se lê por aí, então, especialmente, digo que se deve evitar dar os dois ouvidos a fatos sendo rememorados a partir do contato de uma pessoa, hoje já de idade, com esses papagaios coloridos desses jornais, esses que ainda existem e, sabe-se bem como, sustentaram-se ao longo das décadas da crueldade militar. Eu, as retinas fatigadas, mas a cabeça a plenos carvões, não me esqueço nunca de um acontecimento que se deu décadas atrás, quando tudo não era digitalizado, brilhante e etc. Vejamos.
O tal do homem, que os jornais insistiam em chamar de Mauro Amálgamo, havia empreendido, dizia ele que por acidente, um esquema corrupto de adulteração dos acertos financeiros do Juizado Especial Cível da Cidade do Rio de Janeiro, à época ainda Juizado de Pequenas Causas do Estado da Guanabara, o saudoso dos belíssimos golfinhos da límpida baía. Mas já eu me antecipo assim e talvez tenha soado acadêmico. As crianças de hoje que não se preocupem, mantém-se velado o açúcar da história. Demos um passo à frente nas reportagens para dar um passo atrás no enredo. Vejamos.
No fundo das linhas da Brasil adentro nasceu Maurinho, anti-herói dos papagaios. Era preto na medida certa para a culpa e filho do medo da nação. Bem, aqui eu me exagero. Tudo bem, vamos aos fatos da maneira mais legítima que nos for permitida. Vejamos.
O senhor Mauro, réu primário e nosso anti-herói, era um cidadão de classe média baixa, um digno trabalhador brasileiro metropolitano, pendularmente se movimentando entre o Centro e as adjacências desconhecidas onde morava. Não foi até o dia em que escutou um inédito choro nos idos da Rua da Quitanda que o curso de sua vida se alterou sem volta. Almoçando seu corriqueiro sanduíche de mortadela, o senhor Mauro avistou aquela senhora de sempre, com a marmita de sempre, copiosamente emitindo odioso choro para tão bela criatura. Desejoso há muito de uma aproximação, o senhor Mauro entendeu que não haveria melhor hora e quis consolar a figura de sua paixonite urbana. Desprovido de quaisquer traços de malandragem, com uma fala que não era escorregadia e um sorriso que só possuía três posições, o senhor Mauro se pôs a escutar os choros da dama, que engatou em uma explicação quanto aos fatos que lhe puseram em tal estado. A conversa revolveu, para lamento apenas inicial do senhor Mauro, ao redor da morte do esposo da senhora e da consequente e taxativa ordem do banco para que ela pagasse os devidos encargos das dívidas do falecido, junto à consequente tomada forçada dos bens materiais que estivessem em nome do homem, a saber, tudo o que a mulher possuía. Assim, a coitada encontrava-se sem casa e estava passando um tempo com a irmã. Bom, não foi sem curiosidade que Maurinho voltou à casa neste mesmo dia, matutando com as ideias sobre o caso da senhora (talvez fosse senhorita), que usava o uniforme da equipe de limpeza da Firjan CIRJ e que ele tantas vezes namorou no trem, entre uma ou outra batida de cabeça no ombro de qualquer rapaz mais alto que estivesse de pé ao seu lado.
O senhor Mauro jamais fora homem sem capacidades intelectuais e tinha plena noção disso. Durante seus anos, mesmo com todas as dificuldades da vida, lamentava apenas um único fato: que não tivesse tido mais chances de ler livros importantes. A grande sorte de seus dias, até então, além da boa mãe que lhe criara sozinha, era o fato de ser vizinho de um rapaz que, a duras penas e por meio de um escuso relacionamento com a filha de um homem de valor, conseguira estudar direito na Nacional e auxiliara o senhor Mauro na colocação de um emprego dentro do Juizado de Pequenas Causas. Foi na porta do próprio rapaz que o senhor Mauro bateu naquele mesmo dia, interessado em saber como poderia auxiliar a moça e o quanto aquilo era caso para o Pequenas. Qual não foi a animosidade do nosso réu, ao saber que, sim, aquele caso era da estatura certa dos tantos salários mínimos máximos e que era possível que, ele mesmo, um simples finalizador de transcrição de documentos do tribunal, uma espécie de escrivão – ou escrevente – de relativa importância, porém anônimo, auxiliasse aquela senhorita na resolução de seu entrave com o banco, embora a única função nítida que pudesse exercer na vida da moça fosse a de orientá-la que procurasse o Tribunal.
Não se demorou a buscar a senhorita no almoço e informá-la sobre o uso da lei que lhe estava ao alcance. A senhorita Norma, ainda viúva, porém viva, demonstrou extrema gratidão, dir-se-ia que além dos limites civis, ao senhor Mauro, que, daquela forma, obteve contato direto com um membro de um trâmite legal, o que lhe poderia conferir um papel já não mais imparcial frente à situação.
Tempos depois, na relatividade dos relógios da fiel justiça brasileira, com a vista sempre atenta ao surgimento do sobrenome da moça entre os papéis, o senhor Mauro viu-se frente a frente com o caso da senhorita Norma. Era seu dever, como de costume, transcrever à máquina a sentença final e o valor devido de indenização a ser pago pelo banco, cujos gestos abusivos foram condenados sem que isso significasse grandes feitos. Não existia a complexa teia psicológica que hoje se enxerga dentro de um ser humano, de tal maneira que se poderia afirmar que o senhor Mauro, que teve a brilhante ideia de forjar o documento final, adicionando carismáticos números no valor a ser recebido pela viúva, fê-lo apenas por estar enamorado da moça. Capturado pelo calor do corpo, sequer teve a inteligência de pesar a decisão que tomava, apenas fingiria haver cometido um erro que imaginava ser aceitável. Não mesmo falo sobre as consequências em referência à corrupção ativa de seus atos, mas, isso sim, aos ares messiânicos que aquilo teria em sua vida. É possível que as crianças de hoje considerem, desde agora, estúpida a tentativa, mas não exatamente. Já naquela época, os bancos e as corporações eram grandes demais para o seu próprio bem e para o bem da gente, de tal maneira que qualquer que fosse a seção que realizava os pagamentos que chegavam em cartas da justiça - e esses vinham em maior número do que deveria ser aceitável -, ela não conversava com a seção dos advogados que, dia após dia, sentavam-se no Pequenas Causas com uma cara lavada e que não parecia esconder desânimo de estar constantemente defendendo casos indefensáveis por natureza.
Ao cabo de alguns dias, incrédula, a senhorita Norma não conseguia compreender como poderia haver recebido tamanha quantia. Foi em mais um desses almoços de mortadela que o senhor Mauro deslizou, sabe-se o porquê, embora ele nunca o tenha esclarecido à lei, e revelou à ex-viúva a natureza de seu recente feito. De certo envergonhada, a viúva aplicou-lhe um feroz tapa, imediatamente seguido de um apaixonado beijo. Ela diria, tempos depois, sob a luz das estrelas de Mangaratiba, que aquele gesto havia sido, na verdade, uma transmissão do morto, vinda do além, mas o senhor Mauro escolheu nunca se prender muito a essas misteriosas palavras.
 O tempo passou, dessa vez na relatividade dos relógios da vida moderna, e um dia aparece na porta da casa do senhor Mauro, um domingo à noite, um senhorzinho nas últimas, dizendo que era familiar da senhorita Norma. A relação entre os dois fez com que Maurinho tivesse a paciência de receber aquele senhor àquela hora e escutar todo o seu caso, de ponta a ponta. Incapaz de proferir qualquer sentença ou conselho, foi novamente incomodar o gentil jovem advogado que ainda morava ao lado e que o senhor Mauro sabia estar se mudando em poucas semanas para dentro da cidade. Igualmente paciente, este já sem um motivo tão moreno, o jovem sentou-se na apertada sala, e escutou, junto a Maurinho e sua mãezinha, à história do lânguido senhor de barbas gastas. Foi entre uma piscadela e outra, entre uma tentativa vã de inflexão em termos desconhecidos, que o senhor Mauro captou a presença do parente de Norma ali. Compreendera sua missão, portanto. Disse ao senhor que não se preocupasse, que tudo daria certo, e que bastava ir ao Tribunal na segunda-feira.
O tempo passa, outros como aquele senhor foram surgindo, e, antes que pudesse perceber que já não mais fazia qualquer favor diretamente à senhorita Norma, o senhor Mauro seguiu fraudando os resultados das sentenças, fazendo com que as grandes corporações coçassem um pouco mais os bolsos, embora ainda não sentissem nada, ao passo em que pobres cidadãos eram invadidos por um inédito sentimento de endurecimento dos ossos, da ingestão de um cálcio metálico, formado por níqueis antes distantes e, por obrigatório desdém, sem valor. É nesse ponto que reflito que talvez tudo pudesse ter corrido bem, se o senhor Mauro – que creio nesse ponto da história já ser Mauro Amálgamo – não tivesse seguido em frente e auxiliado um pastor de uma das comunidades das adjacências desconhecidas do Estado da Guanabara. O pastor, como se é reconhecido que o façam, espalhou a palavra, e, então, o destino do senhor Mauro fora selado.
A conversa que agora segue jamais me lembro eu de ter lido em quaisquer papagaios da época, portanto, há de se acreditar mesmo que possa ser lenda urbana, fábula elaborada ou da sorte de mentiras que o povo conta e da qual o povo se alimenta, mesmo dessas que poderia ir parar em um livro lotado de histórias paralelas e cruzadas sobre os feitos de um mesmo homem, que ensinassem qualquer coisa útil ou inútil a quem as lesse e que pudesse atravessar os milênios.
Ainda não ciente de que havia auxiliado o enriquecimento de um popular pastor, o senhor Mauro já encontrava dificuldades em se encontrar com o sono. Revirava-se em sua cama, no beliche que dividia com a mãe, suando, sonhando, pensando que havia ido longe demais, sem sequer saber reconhecer o porquê de havê-lo feito. A imagem da ex-viúva ainda era viva em sua memória, e o senhor Mauro não era exatamente um ser político, embora nem mesmo fosse político o suficiente para reconhecer que não o era, portanto, há de se acreditar que, dentro da sua mente, em algum lugar, encontrava-se sentado em seu trono um pensamento contínuo de que o auxílio corrupto a cada um daqueles pobres era uma forma de se fazer santo aos olhos de Norma e, assim, eternizar-se de alguma forma em seu coração. Mas já não dormia e tinha pesadelos da pior espécie, aqueles cuja violência encontrava-se não em horrores claros e ameaças nítidas, mas, isso sim, numa contínua sensação de temor de que algo terrível irá se apresentar a qualquer momento, sendo a demora em seu surgimento talvez o mais aterrorizante dos fatos.
Ensopado em sua blusa amarelada, o senhor Mauro foi buscar a única pessoa com quem tinha a decente sensação de que poderia se abrir sobre o assunto, e convidou o jovem advogado vizinho mais uma vez à apertada sala de sua casa. Vomitou a sequência toda em rasas palavras, chorou, implorou por ajuda, confessou-se como um assassino jamais se confessa. Pego amplamente de surpresa, o jovem advogado – um herói erroneamente abordado pelos papagaios – tentou levar a conversa da maneira mais sensata o possível. Quis entender cada detalhe do caso, onde tudo começou, as conversas que o senhor Mauro havia tido, os casos que havia conhecido, o método que usara para as adulterações, cada detalhe do que havia feito. Sabia que o crime ainda não se houvera concretizado, posto que ainda não fora descoberto, mas partilhava da incômoda sensação que o senhor Mauro lhe incutiu de que algo estaria para acontecer logo. Como já houvessem se encontrado tarde, a conversa estendeu-se até o raiar do dia, e os dois fizeram o melhor que puderam para traçar planos que livrassem o senhor Mauro das garras da injustiça, com o menor gasto possível de tempo, saúde e, é claro, dinheiro.
Mas os deuses não dão nada de graça, e mesmo aos mais nobres heróis a vida reserva destinos e fardos por demais corpulentos e incompreensíveis.
Foi naquela nova manhã, enquanto, embrulhados em uma noite em claro, os dois passavam um café, que uma batida se deu à humilde porta de Maurinho. Quando abriu a porta, uma fila de mais de cem mil brasileiros o aguardava sob o Sol incipiente de um dia útil. Se à época existissem os helicópteros que hoje os papagaios utilizam em suas coberturas ao vivo, então as crianças poderiam se chocar com a inacreditável imagem de milhares de pessoas se enfileirando na porta de uma casinha qualquer da Brasil adentro, em busca do novo milagre da salvação.
Dali para a frente, deu-se toda sorte de invenção. Algumas eram criativas, mas a maioria, religiosa. Àqueles safos, entretanto, ficaram os traços comuns às narrativas de cada um dos papagaios, inferindo-se o empoeirado esqueleto da verdade da história dos condenáveis feitos daquele brasileiro de regular estatura.
É saboroso e um tanto doloroso notar que rememorar certas passagens traz a mim o cheirinho da comida de mamãe e das pernas da augusta Sara Babb, tudo na época em que ainda morávamos em adjacências desconhecidas do saudoso Estado da Guanabara.
TOMATE É ÁGUA

Podia ser primavera, podia ser inverno, podia ser verão. A maioria das descrições de tempo dos brasileiros não faz referência às estações do ano, porque as estações do ano mal existem no Brasil. Isso é coisa de estrangeiro, e, mesmo que certos eventos se passem em outras terras, não há como referenciar neve, folhas caídas, belas flores, pelo simples fato de que, para milhões, só existe uma coisa após e entre o calor cotidiano: mais calor, com um ocasional dia de inverno, por vezes, terça, outras, sábado. Por isso, talvez fosse abril, quem sabe dezembro. A dupla estava sentada na traseira de uma Kombi amarela, estacionada numa pequena pista de pouso australiana, e só o que qualquer um poderia dizer daquele instante, se fosse capaz de se lembrar de qualquer detalhe muito específico, era que estava um vento insuportável ao qual eles não se sentiam nem um pouco familiarizados.
– O que que cê quer fazer quando isso acabar?
– Mermão, eu vou dormir umas duas semanas direto.
– Não, Dani. Que que tu vai fazer quando a gente parar total?
Dani tentou enterrar as mãos nos bolsos do casaco o máximo que conseguisse, balançando o corpo para frente e para trás.
– De novo, Jota?
– Responde, cara.
– Eu não quero falar sobre isso sem os outros aqui, não qu–
– Eu não vou contar nada pra ninguém, Dani, qual é? Eu sei que cê morre de medo dos dois. Não vou contar, qual é?
– Jota, eu não quero falar sobre isso sem eles.
Jota trouxe as golas do casaco para perto do pescoço. Quase não conseguia exalar o ar, tão forte era o vento cruzado.
– Mas, se você quiser, eu te escuto. Isso não tem problema.
– Cê me escuta, é? – Ele quicava sentado na traseira da Kombi. – Tu já tá cansado de saber o que eu quero.
– Sim, mas eu tô aber–
– Tá cansado de saber que pra mim chega. Eu não aguento mais, não sei como vocês conseguem. E essa ideia de vir pro outro lado do mundo, tocar pra brasileiro e gravar disco com produtor gringo, que ideia besta.
– A gente tá fazendo uma grana preta aqui.
– Ideia besta. Ficar nesse deserto. Ficar mais de mês aqui.
– Tu queria passar uma semana aqui? Depois de numseiquantazora de voo?
– Ideia besta.
Ele estalou algumas vezes a língua e prosseguiu:
– Desde quando grana não entra, Dani? Pra precisar dar esse passeio todo? Ficar tocando cover de Tim Maia pra gente que não entende o recado? Cê sabe que nenhum brasileiro daqui quer ouvir o nosso som, né? Podia ser qualquer um no nosso lugar.
– Dinheiro é sempre bom.
– Só não vale dançá homem com homem, nem mulher com mulher – Ele ria, chacoalhando as palmas ao lado das orelhas. – E os cara se cutucando e rindo?
– Pensa no som. O Peter mal começou a trabalhar e já deu vários toques de gênio.
– Gênio – Ele pausou com as mãos na cintura. – E dormir? Família? Saúde? Sei lá, não beber uma vodca inteira por dia, fumar nãoseiquantos becks, carreira de manhã e–
– Ah, entendi. – com sábias feições. – Cê tinha que se ouvir, Jota – Ele esticou o pescoço para ver se os céus continuavam vazios. – Família. Teu rosto muda.
– Carreira de café da manhã e o cacete.
– Fica com cara de sério e tudo. E isso não é um elogio, tá?
– Não dá pra querer controlar a vida.
– Não, mas dá pra controlar o que tu tem nas perna, meu camarada – Ele deu um soquinho despojado no ombro do companheiro.
– Escuta, Dani. Eu vou te falar, beleza? Você deixa quieto, por enqua–
– Eu não quero ficar de segredinho, Jota. Já disse que não queria nem ter esse papo sem os dois.
– Você deixa quieto, por enquanto.
Jota levantou-se da traseira e colocou-se de pé em frente ao companheiro.
– A gente vai casar, irmão – Pegou o rosto de Dani entre as mãos e balançou sua cabeça. – Vamo casar, irmão.
Dani mastigava os lábios por dentro, respirando fundo, as narinas involuntariamente abertas, escondendo o sono.
– Fico feliz demais por ti, cê não faz ideia.
Os dois se abraçaram e ficaram um pouco mais para se esquentar. Afastaram-se, ajeitando os casacos, e deixaram alguns segundos de vento preenchendo a conversa.
– Feliz demais. Mas como que vai ser isso?
– Simples. Depois da Austrália, eu tô fora.
Dani balançou a cabeça, olhando para o céu novamente.
– Nada, hein? Nenhum sinal de vida.
– Assim que a gente pisar de volta, tô fora.
– Será que eles vêm hoje mesmo?
– Já já eles chegam. Quer um?
Jota estendeu um maço de cigarros na direção de Dani, que fez o movimento o mais rápido que pôde, devolvendo a mão ao bolso do casaco.
– Quer dizer que depois daqui, acabou?
– Trinta dólares um maço. Trinta, irmão. Me diz como pode?
– Jota, tu tem certeza disso, cara? Tu tem certeza d–
– Sim, Dani – Olhou o companheiro no fundo dos olhos. – Cê sabe que eu tenho.
Ficaram em silêncio por alguns instantes, cada um com seu cigarro. Era muito difícil fumar naquela ventania, por isso os dois se acolheram mais para dentro da traseira da Kombi, fechando a porta. Dani desistiu do fumo, apagou o cigarro na bota direita, encostou a cabeça e tentou cochilar, enquanto Jota olhava pela janela, agitadamente.
Fazia mais de meia hora que estavam ali. Ao redor da Kombi amarela só havia o agressivo vento, as listras chamativas no chão e as gigantescas placas de concreto intercaladas, oferecendo educadamente espaço para esquentar umas às outras. A coisa de quinhentos metros à direita, ficavam as minúsculas instalações do aeroporto e a pousada de um andar que havia sido levantada para o pernoite de pilotos frequentes. Como a banda estava em constante trânsito entre uma metrópole – onde se apresentava duas vezes por semana – e uma cidade pequena – onde se reunia com o produtor de seu novo disco –, a pousada tinha uma localização ideal, sendo quase equidistante de ambos os destinos. Já seria conveniência o suficiente, se não houvesse ainda uma inesperada facilidade: o pequeno aeroporto era um ponto de descarga dos correios para as singelas cidades que flutuavam ao seu redor. Assim, havia quase sempre a certeza de que receberiam quaisquer encomendas que a eles estivessem endereçadas.
A espera naquele dia era enfadonha e doía os pulmões, mas ambos acreditavam que receber algo os ajudaria a dormir à noite. Mais alguns minutos se passaram, até que Dani desistiu do cochilo e abriu os olhos:
– Ô, Jota, então tá. Tu quer sair? Tá bem. Quer parar depois daqui? Tá bem. Quer sair da bebida, parar com droga, ter filho, o escambau. Por mim, que cê seja feliz, entendeu?
– Eu sei, irmão.
– Mas tem duas coisas que eu preciso dizer. Tem duas coisas que eu preciso te dizer.
– Eu sei que, mesmo com qualquer coisa, nós quatro só desejamos felicidades um pro outro.
– Primeiro, tu tem que saber que eu não vou conseguir te perdoar. E eu te digo isso com meu coração, Jota, coração na mão. Eu não vou conseguir te perdoar.
Jota olhava para baixo, fumando já bituca.
– A gente tá no que qualquer um chamaria de auge, sei lá. Ou quase no auge. Capa de tudo quanto é revista, televisão, show fora do país, discudiôro. Tu tem noção de que a gente vei–
– Eu sei, Dani. Eu sei, já falei. “A gente veio parar do outro lado do mundo pra fazer o que a gente ama”, eu já sei dessa história toda.
Dani chacoalhava o indicador direito, aproximando os lábios do rodapé das narinas:
– Tu tem noção, então? De que a gente veio parar do outro lado do mundo pra fazer o que a gente chegou a acreditar que nunca ia conseguir fazer? Cê sabe que a minha mãe me tirou de casa, não sabe? Cê as–
– Não é tão diferente pra mim, Dani. Só que cada um sabe de–
– Cê sabe o que tá fazendo então. E sabe que eu não posso te perdoar, e os outros dois muito menos. Eu e você, a gente até se entende legal. Você e aqueles dois, falta espaço, nem sei.
Jota abriu a porta traseira da Kombi e atirou o cigarro para fora com um peteleco. O vento o lambeu distante.
– Eu te entendo. Qual é a segunda coisa?
– Hã?
– Cê falou que tinha duas coisas. Primeiro, que não ia conseguir m–
– A segunda coisa é me conta.
– Quê?
– Cê sabe, me conta.
Dani bateu algumas vezes com a palma na mão no interior do pulso esquerdo do companheiro.
– Cê sabe.
– Caramba, tu é repetitivo demais. Virudisco, Dani.
– Tu vai me abandonar e quer mandar eu virar disco? Para.
Jota estava novamente ao vento, com as costas viradas para a traseira da Kombi. Esticou os braços por cima da cabeça, em seguida abaixando-os e tocando os pés com a ponta dos dedos. Voltando a ficar ereto, virou-se e agachou próximo a Dani, apoiando as mãos em suas coxas, que agora estavam novamente para fora da traseira.
– Escuta, Dani. É o seguinte. Digamos que é o seguinte. Tem tatuagem, na verdade, eu diria que a maioria delas, tem tatuagem que a gente faz pra mostrar alguma coisa, certo? Porque quer mostrar alguma coisa, certo?
Dani fez com os lábios o sinal de quem pondera uma informação. Jota completou, piscando um olho só:
– Então. Capisce?
– É. Nué à toa que você que escreve as letras.
O helicóptero fez uma chegada discreta. A dupla se assustou e ficou de pé, lado a lado, com as cabeças inclinadas quase completamente na vertical. A pouquíssimos metros do chão, um homem inteiramente agasalhado, de quem só se era possível ver os óculos, começou a gritar da porta aberta do helicóptero, que chicoteava ainda mais a tempestade de vento:
– Ó!
O barulho das hélices era próximo e ensurdecedor. Por causa da névoa baixa, era difícil enxergar com clareza, cada um ia se guiando pelo som que se agarrasse nas paredes dos ouvidos. O homem do helicóptero prosseguiu sua gritaria:
– Ô, Dani, tem... ...qui da tua mãe!
– Quê?
– ...tu falou, da tua mãe!
O homem não esperou um sinal de confirmação, simplesmente atirou um largo cubo envolto em papel pardo e amarrado com barbante na direção de Dani. Se fosse possível ver seu rosto, pareceria desolado, mas sua voz sozinha já indicava certa melancolia, ao gritar na direção do outro da dupla:
– ...não tem...teu nome!
Jota abriu a boca e balançou a orelha direita duas vezes na direção do helicóptero. A voz veio certeira:
– Não tem nada aqui no teu nome!
Jota não hesitou:
– Procura entrega pra “Cachorro Azul”!
O homem do helicóptero proferiu palavras nervosas para o piloto e virou-se novamente para o chão:
– Coméqui é?
– Frank, pacote pra “Cachorro Azul”! – Esticou as duas mãos ao lado da boca – “Ca chorro A zul”!
Frank xingou mais uma vez, agora com perfeita clareza. Sem dizer mais nada, atirou um pequeno envelope na direção de Jota. O filete de entrega desceu ao bel prazer do vento, indo parar a alguns metros da dupla. Num movimento hábil, porém desinteressante aos dois do solo, Frank usou cordas coloridas e cabos de aço para descer algumas redes lotadas de envelopes e pacotes amarrados entre si, pousando tudo ao lado da Kombi. Sem qualquer palavra de despedida, o helicóptero retomou altitude de voo e deslizou na direção do céu cinza de fevereiro. Ou setembro.

O miserável Senhor Jota estava chegando à sua miserável mansão no Joá, quando foi abordado pelo afortunado rapaz da cancela:
– Sr. Jota, chegou coisa aqui pro senhor. Envelope.
– Mas é coisa de fã? Eu já não mandei não entregar ess–
– Perdão, senhor. É que na verdade está endereçado praquele nome lá que o senhor disse que é pra te entregar sempre que chegar pra ele – o rapaz da cancela não conteve um riso de canto.
O Senhor Jota ficou imediatamente mudo. Depois de alguns segundos, ordenou que o rapaz lhe desse a entrega. Fez o motorista passar da cancela, desligar o motor e deixá-lo sozinho ali mesmo.
Quase rasgou a carta ao abrir o envelope.

“Prezado Jota Millone,
Eu desde já compreendo que inexiste qualquer charme em se iniciar uma carta descrevendo eventos que tenham ocorrido na cidade de Sydney, décadas atrás. Se eu tivesse algo como Paris nas mangas, ou uma atmosfera mais Kundera, mesmo um ponto místico das indescritíveis curvas de nuas dunas do litoral nordestino, quem sabe? Todavia, só me resta mesmo Sydney e não há mesmo o que ser feito. No intuito de trazer certa dose de romantismo a essa exposição unilateral, utilizarei o nome do estado, o que você acha? ‘Nova Gales do Sul’, que tal te soa? A mim me parece um pouco mais fecundo de sonoridade e cenografia.
Bem, a que venho eu aqui. Batalhei muito com minhas ideias sobre lhe escrever ou não, por diversos motivos, todos aos quais obtive satisfatórias réplicas sãs da minha própria figura. Inicialmente, considerei que estas palavras jamais chegariam a você. Primeiro porque, bom, você é você, certo? Quer dizer, quem poderia sequer rastrear tal figura? Segundo porque talvez as coisas hoje andem tão rápidas e modernas que a chegada de uma carta possa parecer terrorismo, piada ou qualquer coisa promocional ordinária. Em seguida, eu considerei que, na louvável ocasião de tê-las em mãos, você desistisse das minhas palavras tão logo as começasse a ler, afinal, que de interessante poderia dizer um simples professor aposentado a uma grande estrela aposentada (Eu peço desculpas se você ainda estiver em atividade. É que com o tanto de pesquisa que fiz para te encontrar, com auxílio de minha filha mais nova, acabei por descobrir que você está numa espécie de retiro ou paradeiro ou crise existencial há alguns anos. Se estiver enganado, o que, francamente, poderia ser, já que não acredito que se deva confiar inteiramente nos mecanismos de busca que existem, peço perdão de antemão)? Contudo, como pontuei, fui eu mesmo encontrando réplicas satisfatórias a tais questionamentos, o que me trouxe a este momento em que coloco estas palavras para a sua pessoa. Veja, antes de tudo, pensei, eu tinha o trunfo do pseudônimo, sabe o que quero dizer? ‘Jamais vai falhar’, você me disse, afinal, as únicas pessoas do mundo que conheciam a alcunha éramos a mulher que o senhor amava e, por mero acaso, eu. Recordei-me deste fato e nele quis acreditar. Eu me lembro de achar que deveria me sentir lisonjeado, mas, sendo franco, eu era nada familiarizado com a figura do senhor e dos seus companheiros de palco, portanto, apenas achei o pseudônimo ridículo (isto é, até um recente momento em que me recordei do nosso encontro e, por acaso, compreendi o uso deste nome, parabéns pelo romantismo, por sinal). Veja, além do pseudônimo infalível, tenho razões para acreditar que, sendo você também protagonista dos fatos narrados a seguir, é provável que seu ego possa se alimentar um pouco destas palavras.
Bem, eu ia dizendo. Nova Gales do Sul. Sim, o que ocorre é o seguinte: a minha esposa faleceu recentemente, por ordem dessas inevitáveis e imbatíveis doenças que se apossam do espírito da gente, de tal forma que eu precisei passar por uma espécie de grande faxina na casa, revirando armários, procurando lixos, memórias, coisas que jogar fora e coisas que emoldurar para a parede ou para o coração. Dentre tantos objetos antigos, dei de cara com um antigo álbum de fotografias que eu havia deixado de lado, séculos atrás. Eram, não se espante, capturas justamente do período em que vivi em Nova Gales do Sul. Eu estava debruçado sobre essas memórias – nenhuma das quais a minha esposa fazia parte, pois eu a conheci no dia em que pisei novamente no Rio de Janeiro –, e as tinha tomado simplesmente como fragmentos de uma juventude por mim esquecida. Ora, as fotos teriam permanecido adormecidas naquele álbum, se não fosse o espanto da minha mais velha: ‘papai, quê isso, esse homem parece muito o Jota Millone, só que bem mais novo’, ela riu. Sendo honesto, senhor Jota, você me passou naquele momento tão despercebido quanto passara no instante da captura, mas não pude conter minha curiosidade em querer pesquisar e saber mais sobre o senhor e sua história como músico. Olhando a foto com um pouco mais de carinho, ela acabou por cumprir uma das funções reservadas a fotografias, e eu me recordei, ao máximo de detalhes possível a um homem da minha idade, dos fatos que se sucederam naquela ponte em Nova Gales do Sul.
Eu peço que, caso você venha a responder às minhas palavras, você corrija qualquer falta de acuracidade que eu lhe venha a apresentar nos arcos a seguir. No que se refere à sua figura, é claro, pois eu, prezado Jota, sinto-me neste instante precisamente como me sentia naquele dia, por ordem do meu caso recente, ou por ordem da pungência de uma fotografia.
No dia em que capturei a sua imagem na ponte, eu me sentia especialmente desolado. Veja, a vida de um imigrante solitário é complexa pelo seguinte: ao mesmo tempo em que ela é profundamente complicada por si só – a distância, a saudade, a língua e os comportamentos estrangeiros, os olhares de julgamento, mesmo as mais simples distinções frente ao dia a dia do Rio –, complicada mesmo, ela é também fatalmente simples. Ora, era tudo mesmo fatalmente simples, eu me lembro: você acorda cedo, dedica-se a um labor que nada exige da profundidade dos seus neurônios, sai do trabalho, estuda inglês por algumas horas, toma literalmente um copo de cerveja, vai para casa e dorme. E tudo se repete no dia seguinte. Veja você, portanto, como ela pode ser complexa, visto que ela mistura justamente as características mais difíceis com as quais um ser humano pode lidar, o embate entre o simples e o complexo, um misto em bigamia de condições simples e atordoantes, num formato de tempo inverso ao tempo natal. Pois bem, como se toda essa carga já não fosse suficiente, aquele dia na ponte eu me sentia especialmente machucado, pela ordem do amor que não fora correspondido. Em retrospecto, eu penso que talvez você tenha enxergado isso na minha alma, com sua visão de músico e tudo, e por isso nos demos imediatamente tão bem. Por outro lado, penso também que talvez você rapidamente tivesse percebido que eu não passava de um tipinho calmo que não te conhecia, fazendo de mim, portanto, um ser fundamentalmente imparcial, ao qual você poderia revelar seus profundos segredos, afinal, para mim você não passava de um bêbado numa ponte. Há também essa hipótese, agora vejo: você estava muito bêbado e não conseguiu ficar de bico fechado. Bem, eu me sentia especialmente machucado porque havia sido, naquela manhã mesmo, rejeitado. Sim, Senhor Millone, eu cometi o infantil erro de me apaixonar por aquela que exercia o ofício de me introduzir e instalar à língua inglesa.
Eu me lembro que tudo começou quando eu fui rearranjado de uma classe para a outra. Aparentemente, eu já não era mais um falante intermediário baixo e havia me transformado em um aluno intermediário alto. No primeiro dia em que adentrei sua sala de aula, eu me apaixonei imediatamente pela franja, a franja que me dava por impressão a ideia de que ela havia mesmo escolhido a franja para atrair os olhares para o centro do rosto emoldurado pelo cabelo, diminuindo um pouco o impacto que ela provavelmente imaginava que causavam suas graciosas orelhas. Ali, eu já estava perdido. O que, honestamente, não me surpreende. Existem certas receitas básicas para que um ser se apaixone pelo outro, e é natural pensar que uma incidência de luz em meio a uma escuridão de mais de mês possa fazer alguém pensar que não pode viver sem aquela fonte. Eu não quero sair como mentiroso, não me importa mais tanto assim a minha imagem, portanto, admito para você que muito me chamaram os olhos os seus mamilos que apareciam independentes pela blusa vinho que ela vestia naquele dia. Já naquela época, eu era o que se poderia chamar de um homem com potencial feminista, coisa do tipo, eu acredito mesmo que se deva dar a elas o que quer que elas queiram, mas eu ainda não havia me despido integralmente da perspectiva através da qual somos ensinados que as mulheres, em especial certas como professoras, não passam de obras de arte, objetos de admiração para a imaginação masculina. Fosse como fosse, eu estava apaixonado por uma professora australiana de inglês, e, desde o primeiro dia, aquilo estava fadado à dor.
Não foi sem inclinações bêbadas, portanto, que esbarrei com o senhor naquela ponte. Eu estava caminhando sem rumo, havia acabado de sair do trabalho e tinha a minha câmera pendurada ao pescoço, como era de costume. Eu me lembro das bandeiras distribuídas ao longo de toda a ponte, anunciando a chegada de mais um ano do porco. Particularmente bucólico, eu estava em busca da tristeza urbana que pudesse ser capturada, quando te notei de costas, apoiado no parapeito da ponte, fazendo gestos inexplicáveis na direção da água. Eu me lembro de achar curiosa a sua roupa, extremamente agasalhado, como que pronto para qualquer grande nevasca, nem sei. Quer dizer, era mesmo inverno em Nova Gales do Sul, mas, especialmente na capital, as temperaturas da estação não eram lá exigentes daquele nível de vestimenta quente que você usava. Eu me aproximei cauteloso da sua figura e parei a alguns metros de você, encostando no mesmo parapeito. Qual não foi a minha surpresa ao perceber que, com um cantil na mão, você estava fazendo sinais e movimentos desconexos com as mãos, admirando as sombras que se formavam ao longe na água da baía, sombras desenhadas com uma curiosa inclinação para a esquerda, formadas pelo bater daquele sol morno do inverno de Nova Gales do Sul. Eu, logicamente, achei seu tipo tão curioso quanto qualquer um teria achado, mas acho que me diferenciei de outros transeuntes quando optei por algo que, creio eu, somente um imigrante solitário optaria por fazer, e me aproximei do senhor para fazer sombras ao seu lado. Talvez você não se lembre de nada disso, mas você não expressou qualquer reação após a minha chegada. Não se assustou, não se virou para mim, não parou o que estava fazendo. Você simplesmente me aderiu à brincadeira e começou a interagir freneticamente com a sombras que eu fazia. Não demorou muito até que você esticasse o braço direito para mim, achava eu que me oferecendo um gole do cantil, para que eu retirasse o objeto da sua mão e você pudesse tê-la livre e esticá-la para dentro do seu exagerado casaco e puxar um maço de cigarros. Mesmo não sendo convidado, apresentei um largo gole ao uísque, como quem deixa o outro entender que há algo dentro de si que precisa morrer tanto ou mais. Creio que você notou isso, porque pegou o cantil de volta fazendo aquele típico sinal de “um brinde”, erguendo-o um pouco no ar, enquanto abaixava a cabeça na diagonal. Passamos alguns quietos minutos ali, fazendo sombras, bebendo, esquecendo que havia uma Nova Gales do Sul e mesmo uma Terra, como duas crianças de castigo que desenham num sangue-areia.
Eventualmente, nuvens parciais cobriram o sol, você tirou o casaco e atirou-se no banco que estava atrás de nós. Eu me senti imediatamente vazio, porque a hora da brincadeira terminara. Eu teria que encarar o resto da ponte e uma caminhada de volta à casa, real e espaçosa demais em suas poucas paredes. Sentei ao seu lado e fiquei em busca do que dizer, não querendo encerrar o silêncio, mas acho que até procurando expressar alguma gratidão. Foi quando você disparou, com palavras mais românticas e ensaiadas do que estas: ‘Poucas coisas machucam mais do que perder um amor, não é?’ Eu não sei que raios te levou a falar português comigo, mas provavelmente foi seu ego de músico, tão grande que sequer fazia diferença para você se suas trivialidades seriam entendidas, você só queria ocupar o espaço eloquente que lhe era de direito. Assim, acho que você se assustou e deu um pequeno salto quando eu te respondi ‘Nem me fale, camarada’, ao que se seguiram algumas trocas simples e necessárias quando dois estrangeiros conversam no exterior. ‘O que você faz aqui, há quanto tempo, por quê, quando vai embora, etc?’ Foi essa conversa clássica, até que pudéssemos reestabelecer a intimidade primeiramente posta com o jogo de sombras e voltássemos a falar de voltas de amor e você me dissesse que você nunca fora do tipo caseiro, mas que ela te ensinara a fazer um pomodoro dos deuses, desses que fica umas cinco horas na panela, e me contou que você picotava os tomates como um louco, até o dia em que ela lhe explicou que aquilo era vão, que tomate é água, some no molho, as sementes até, etc, que vocês fizeram amor esse dia, na bancada da cozinha apertada do pequeno apê dela na Rua Dona Maria, e eu lhe dissesse – embora não lhe respondesse – que me lembrava com exatidão da lancinante sensação de vê-la sentada ao centro da sala, naquele carpete cinza, os olhos zanzando de pares em pares, olhando para mim da exata maneira como olhava para todos os outros e outras, a sala inteira, para ela, eu sabia ser composta de um ou de uns mesmos rostos, nenhum dos quais eram o meu. Você tampouco respondeu à minha descarga, mas olhou bem para o meu rosto e percebeu que ele era nu, disparando qualquer peão que anda duas casas como ‘Poucas coisas podem ferir mais o sensível ego de um homem do que caminhar da puberdade imberbe ou com falhas pelo rosto’ E você tinha certa razão, embora eu há muito houvesse superado aquilo, bem como toda a mentalidade retrógrada do mundo da barba. Ela é um símbolo magno do que representa a masculinidade, uma espécie de pênis constante a céu aberto, um comparativo fiel de virilidade entre as figuras dos meninos. Eu creio que nessa época já havia superado isso. Alguns meses antes, já na Nova Gales do Sul, eu me recordo de uma passagem capital que me fez entender um pouco mais sobre a infantilidade do nosso universo, quando, bêbado e mais, um rapaz de Campinas que eu havia conhecido, Bernardo, sentado frente a uma fogueira de praia, botou as mãos numa aranha branca que caminhava sobre a areia e enfiou-a diretamente na boca, respondendo ao choque alheio enquanto mastigava: ‘Que foi, achava que era um siri’.
Infelizmente, eu não me lembro de muito mais que meia dúzia de outras palavras ébrias que trocamos, mas, e esse talvez devesse ter sido o tópico central desta carta, eu me lembro do presente que você deixou comigo e do instante em que capturei sua pose no parapeito, dessa vez voltado para a minha lente. O presente talvez você tenha se arrependido de me dar, talvez, com o passar dos anos, você tenha esquecido onde ele foi parar. Quem sabe se você não se reencontrou com a tal mulher, justamente por isso anda esquecido, gozando de um amor que tanto lhe doeu perder. Eu não sei. Eu sei que me lembro, mais ou menos, do bottom que você tirou do seu último casaco, depois que você se despiu dele e ficou apenas de camiseta, agora inapropriadamente fresco para o inverno da NGS. Você tirou o bottom, proferiu qualquer ofensa misógina a mulher, prendeu-o no meu peito, levantou-se em direção ao parapeito e gritou em trôpegas palavras: ‘Tiruafoto, meu camarada’. Seu sorriso, você vai perceber, parece um bocado sincero em sua tristeza. Você foi embora sem dizer mais nada, mas eu me lembro de perguntar de longe sobre as tatuagens no seu pulso (elas não eram tão comuns quanto são hoje, você não acha?) e de ter como resposta qualquer outro discurso profundo típico de pessoas da sua natureza artística. O bottom, e saiba que a caneta hesita ao revelar tal obviedade, deve ter se perdido em alguma das muitas mudanças que eu fiz ao longo dos anos, junto a tantas outras coisas, incluindo boas anotações, que eu simplesmente ia espalhando pelos espaços, prometendo a mim mesmo que eventualmente as organizaria de forma alfabética e mesmo até geográfica. É que eu, durante muitos anos, era convencido de que tinha o sonho de escrever um livro sobre as inúmeras viagens que empreendi em minha existência, por isso acabei da personalidade desses acumuladores de coisas, embora eu a elas nunca oferecesse um destino final. Eu creio que esse escritor adormecido é que agora lhe destina essas palavras. Mesmo porque, se quem escreve este texto estivesse realmente sendo integralmente sincero, é possível que ele fosse uma transcrição de uma dessas mensagens de voz, concorda? Mas talvez faltasse com a fatia literária da proposta.
Sinceramente, senhor Millone, eu nem sei de onde veio essa enxurrada de memórias e tenho certeza de que, após ler minhas palavras, isto é, se você sequer se recordar dos fatos narrados, você terá uma série de interferências a sugerir, mudanças do que foi dito e feito e tudo mais. É natural isso, mas muito me espanta do quanto eu fui capaz de relembrar, ao simples olhar desta fotografia. Você não acha curioso isso? Eu sempre digo para as minhas filhas, talvez eu use geralmente palavras mais simples, é claro: ‘Vocês acham que as memórias são fatiosas e vívidas, porque é assim que o jovem vive e se enxerga. Mas os anos vão passando e vocês vão perceber que mesmo as maiores frustrações e felicidades viram manchas disformes de figuras do passado, salvo uma exceção ou outra’ Me parece, prezado Jota Millone, que tenho razões para acreditar que você seja uma enorme exceção em minha memória. Quem saberá dizer por quê?
Você vai encontrar, junto a estas palavras, a foto mencionada.
Atenciosamente,”

O supreso Senhor Jota Millone virou o rasgado envelope de cabeça para baixo, deixando cair uma pequena foto lavada. Admirou-a com carinho e riu ao se lembrar dos brincos de argola que usava naquela época. “Eu sempre fui à frente do meu tempo”, pensou.

O NORDESTINO PALHAÇO

A plateia do segundo homem mais importante da televisão brasileira ria debilmente e ao vivo com um dos imitadores do palhaço mais engraçado do Brasil. Contando com ele, eram quatro na final do concurso. Todos os demais estavam enfurnados no esfumaçado camarote. Os dois cariocas estavam de canto, conversando entre si e fumando, e o nordestino se maquiava em frente ao espelho, em um bocado se antecipando, já que seria o último a se apresentar.
Eram todos imitações. Uns mais, outros menos, mas todos imitações. Ainda hoje, a presença dos cariocas permanece mistério. Dizia-se, embora sem qualquer malícia, que entraram por uma espécie de conchavo com a sobrinha do dono do programa. Eram mesmo novos demais, e um deles sequer se apresentou à produção para entrar no palco, ficou fumando no camarim e tentando conseguir pó com algum transeunte. Era evidente que pouco se importavam com qualquer coisa a não ser com o próprio fato de estarem ali. O paulistano, mais experiente e sério, tinha o rei na barriga, com toda razão: cursara aulas de clown num instituto da capital, era fã de Chaplin, conhecedor do pós-guerra de Marcel Marceau e amante de uma estudante de belas artes que acabara de ingressar na USP. Quando disse à família que seria artista, o pai quase teve um aneurisma, mas acabou por ceder dinheiro e relaxo ao rapaz, afinal, era criança e teria tempo de encontrar seus caminhos, conforme disse a mãe. Naquele momento, mais velho e calejado, sentia a plateia em suas mãos, bem como o dinheiro do prêmio. O nordestino foi parar ali quase sem querer, mas se agarrava à oportunidade. Afinal, “Cada moeda conta”, seu pai, que isso aprendeu do avô, lhe ensinara. Era motorista de táxi na maior capital do Sudeste e ficou famoso, ou assim gostava de pensar, por ser o taxista nordestino que recebia os clientes com doses humoradas do repente clássico em seu Santana. Era um mestre nato da métrica, como tantos nordestinos parecem ser mestres natos de tanta coisa, embora não soubesse que fazia uso de versos em sua maioria decassílabos, muito menos sabia o significado das sextilhas, mas tem disso, o nordestino como enviado dos céus, um digno aprendiz natural de qualquer ofício, como que por evolução e instinto, herdeiros ou criadores dos maiores literatos da história, nascendo com a habilidade do repente, desconhecendo a razão, e com a rima perfeita debaixo da língua. E assim foi, o taxista dos repentes humorados chamou a atenção de um, de outro, alguém que conhece alguém, até que rodou pelas bandas do Jardim Botânico ou do Leblon, e carregou em seu Santana empilhado de repentes alguém que conhecia alguém, que conhecia alguém, que trabalhava com uma pessoa que não era exatamente tão importante, e, justamente por isso, fora parar no programa do segundo homem mais importante da televisão brasileira.
Ele era o de ar mais sério e fora o mais engraçado de todos os imitadores até então, dentro da competição que já durava duas semanas. Em toda ocasião, destilou alegria a partir da presença rarefeita de sorrisos no ar, em meio a uma eterna expectativa alheia de falha que pudesse produzir risos sórdidos, embora não necessariamente mais sinceros. Adiantava-se lentamente. Enamorado com seu reflexo, tocava cada ponto do rosto com cautela, como entendesse a sensibilidade do momento. A cada toque no próprio rosto, ia repetindo para si o discurso que o tinha dado forças até então, “Estou fazendo isso pela minha pequena”, ele insistia para si. É claro que se havia apaixonado pela atenção, pelos risos, mesmo as pessoas tímidas amam atenção, a única diferença é que desconhecem os caminhos para consegui-la, mas ele não era exatamente tímido, apenas se sentia deslocado, afinal, que terra se tem ou a que terra pertence um homem, se nem bem vive nas léguas em que nasceu, nem bem é dono de nada ou aceito com mais que boa tarde, vou ali depois do Humaitá, nas léguas em que vive ou dirige. Um nordestino com quem se ria por completo uma plateia, ora, isso lhe era novo, e ele só conseguia pensar no quanto se sentia cidadão. Aproximou-se do espelho, como que para tornar mais íntima a conversa consigo, receoso dos olhares de outros no camarim. De perto, viu seu liso rosto, a barba feita na navalha, quer dizer, o bigode, única mata abundante que conheceu e de que foi dono, sequer um milímetro árido em sua face redonda, na verdade triangular, com fartas orelhas. Desde pequeno, sabia que sua sensibilidade era um fardo, embora não usasse essa palavra, “É duro ser homem e sentir vontade de chorar”, ele dizia, não para a esposa, nem para a filha, nem para qualquer colega de labuta, mas apenas para si. Dava gentis pancadas de pó branco na bochecha, espalhando o disfarce circularmente. Os restos da maquiagem flutuavam pelo ar, invisíveis e sem rumo, desenhando uma trajetória ao chão de tatame, onde pisavam os sapatos lustrados de um carioca, ao pé da cadeira. Sentiu a presença atrás da nuca e pelo reflexo avistou a figura. O carioca, mais novo, soava sempre arenoso, e o nordestino se convencia de que aquele tratamento era como as coisas se desenhavam no Rio de Janeiro, e, na verdade, aquele carioca gostava dele e queria mesmo era jogar conversa fora. “Fala, paraíba”, ele soltou. “Diga lá, macho”, o nordestino respondeu sem alterar o humor para cima ou para baixo. “O que queres?” O carioca jamais admitiria que sentia certa admiração pela tenacidade do sujeito, era muito mais acessível na sua mente a ação de lhe atrasar os pensamentos. “Tá cheia a plateia hoje, cê viu? Programa ao vivo e tudo mais”, o carioca abriu tranquilo. Ele primeiro quis dar de ombros, mas sentiu que a resposta poderia soar um pouco agressiva, portanto, riu falsamente, “Eu gosto do perigo”, respondeu calmo. Jogaram meia dúzia de inutilidades um ao outro, o carioca por fim lhe desejou um “Merda!” que o nordestino tentava equilibrar entre a sorte e a maldade gratuita.
O paulistano entrou suado pela porta do camarim. “A plateia hoje está adorável”, ele poetizou com “s” limpo. Era a vez do carioca mais jovem, a produção chamou, ele havia dito para alguém que não se sentia disposto e desaparecera das bandas do estúdio, fazia coisa de uns dez minutos. Como o primeiro do Rio já tivesse se apresentado e o palhaço de São Paulo também, a menina da produção cutucou o ombro do nordestino, “Você é surdo?”, ela perguntou, “Vai que é sua vez.” A sua barriga ficou gelada, as mãos molhadas, o corpo agitado, nada disso sem razão, mesmo que fosse aquele o segundo homem mais importante, ainda era homem importante, a plateia era gigante, as câmeras ameaçadoras, o país inteiro assistindo e torcendo ninguém vai admitir pelo quê. “Mas eu não terminei a maquiagem”, ele não teve tempo nem coragem de dizer, “Como eu posso me apresentar sem estar inteiramente maquiado?” Ninguém ligava, e ele ficou frente a frente com o chefe da produção. “Você tem alguma pergunta?”, ele começou. “Se tiver a hora é essa. Você já sabe do prêmio, já sabe das condições do contrato e das consequências de aprontar surpresas no palco, certo?”, ele continuou. “Você está ciente de que vai ter que fazer um trabalho impecável para superar o paulista, não sabe?”, ele finalizou sem mostrar nenhum dente. O nordestino teria que ser duas vezes melhor. Teria que ser perfeito.
E assim o foi, magicamente. Sutil, circular, presente. Um homem que nasceu para os palcos, quando neles pisa, despe-se de todo e qualquer temor, pois o único verdadeiro medo que se pode ter é de não poder voltar a estar ali, de não ter alguém no mundo lhe considerando de importância o suficiente para tomar um pedaço daquilo, e esse sentimento não é invasivo senão a partir do segundo em que as luzes apagam, até que acendam mais uma vez, quando acendem. O nordestino era um homem morto quando fora daqueles feixes brancos, era um corpo carregado pelos fracos cavalos de um Santana velho pelos cantos nada celestes do Rio de Janeiro, preso no tráfego daquela diabólica volta que é preciso fazer naquele hospital que fica bem no meio início ou no fim de Botafogo, onde a maioria das crianças de classe média carioca nasceu na década de noventa, carregado um cadáver, e não levitando como um espírito nobre, mas afundando constantemente, junto à Terra, que nem se percebe, mas que está sempre indo da esquerda para a direita numa diagonal inferior, embora suba, volta e meia. O nordestino, em dado momento da sua apresentação, improvisou de tal maneira que estava deitado, piscando e vendo o teto de mil sóis alvos, já não mais temoroso, pois, mais do que o mundo, O Brasil era seu, e esse poder poucos homens conheceram, e a única mulher que se soube quase tê-lo foi injustamente atirada aos leões. O nordestino, agora em alfa, não tinha espaço para pensar que ele era ali o símbolo de um país que era outro que não o país do qual nós falamos e que visitamos no verão, não, um país que, se no exterior da caverna vivêssemos, deveria nos governar a todos, aquele paraíso infindável, a genialidade, a tranquilidade e a inteligência que se disfarçam em humildade e conhecimento de como aquela planta ali, perto daquele burro que chuta o chão para achar água, pode curar uma ressaca e um câncer.

Ele quase não acreditou quando o segundo homem mais importante da televisão brasileira caminhou camarim adentro. Todos se entreolharam, o homem olhou apenas para os demais, como se dissesse: “Vocês não vão sair?” Eles estranharam, mas saíram, afinal, era o homem. A sós com o nordestino, não fez qualquer rodeio e trouxe de cara a proposta: “Quero fazer um show itinerante com você. Passear pelo Brasil, homenageando o palhaço e alegrando as pessoas. Você vai ficar famoso e ganhar dinheiro, o que me diz?” Ele pensou demais, até que o homem estalou os dedos na altura dos seus olhos, “E então, o que você acha? Por acaso está ponderando as ofertas que tem recebido?”, ele riu. “Não, senhor. É que não vai dar não, senhor. Eu tenho filha para criar, ela é nova ainda, não tem como deixar minha esposa, o Rio de Janeiro está ficando cada vez mais perigoso, e o que as duas vão fazer sem eu lá, sem um cabra para segurar as pontas?”, disse orgulhoso. Orgulhoso também o homem, que apenas respondeu “Você é quem sabe”, levantou-se e foi embora. Não estava acostumado a receber não, muito menos de nordestino, muito menos a fazer a mesma oferta mais de uma vez. Antes de se retirar do camarim, deu o envelope com o prêmio em dinheiro na mão do nordestino. “Tenha uma boa vida”, disse e saiu.
Primeiramente, ele queria agradecer a Deus. Mas, antes mesmo disso, queria sair daquele ambiente tóxico. Tirou as vestes de palhaço, mas não o espírito, limpou o máximo de maquiagem que pôde e foi. Tentou pela porta dos artistas, mas o segurança apenas sacudiu o indicador pendularmente e apontou a saída de serviços. Resignado, apenas caminhou com sua bolsa e saiu pela porta de metal. Ficou surpreso ao dar de cara com os dois cariocas e o paulistano na parte de trás do estúdio. “Oi, pessoal, ainda estão aqui?”, ele ia falar, quando já no “oi”, levou um soco na boca.
“É mesmo duro ser homem e sentir vontade de chorar”, ele pensava. Que o destino do nordestino possa ser cruel ele já entendia, mas que os próprios da sua raça o quisessem ainda mais dificultar, sem dúvidas era uma decepção, embora não fosse surpreendente. Ele não sentia as pancadas, anestesiado pelos próprios pensamentos. Considerava a hipótese de que o fardo seu realmente era aquele, inalterável, e que, de certa forma, apanhava com razão, porque se existe um pensamento que permeia a cabeça da maioria das pessoas, então faz sentido que esse pensamento seja a verdade, e pensava na superioridade dos colegas de quem apanhava, o que, portanto, significava pensar no consenso geral de que o Sudeste era de natureza rica e abastada, e que a pobreza de suas terras era, em verdade, fruto da chegada dos outros, que macularam as terras de beleza infindável da Guanabara e as de riqueza intomável das fábricas. “Tudo bem”, ele racionalizava com gosto de metal na boca. “Não é culpa deles viver na terra prometida”, enquanto tomava socos e pontapés e tinha suas vestes rasgadas. “Toma, paraíba, volta para a tua terra, paraíba!”, enquanto lhe chutavam o estômago. Deixaram-lhe quase desmaiado à beira da porta de serviço do estúdio. Dividiram entre si o dinheiro, que era suficiente para tomarem cada um seu táxi e sobrar para o que quisessem. “Valeu, baiano”, despediu-se o paulistano. Teve a impressão ainda de ver o par de sapatos do segurança que lhe indicara a saída, antes de colocarem sua boca aberta no meio-fio e lhe afundarem a arcada com um chute na nuca.
“Eu vim do Ceará”, ele pensou, com asfalto nos dentes. “Eu vim lá do Ceará.”

O GRANDE HOTEL HOTEL

Quando Lacônico, o taxista, abriu as portas do carro e gentilmente lhe ofereceu passagem, ele acreditou que o letreiro estava com defeito e concluiu que, mais uma vez, haviam-no colocado em uma espelunca. Entrou com sua maleta de mão pelo saguão, dando de cara com o recepcionista, que parecia sincero:
- Bem-vindo, senhor!
Ele só queria dormir. Quem viaja muito sabe: tem dia que é noite, e tem noite que é interminável. Ao menos ele teria um quarto confortável para descansar, graças ao diamante ou ouro que ele conquistara em uma dessas companhias de viagens comerciais.
Embora estivesse passando mal de sono, sabia ainda que tinha que fazer aquela ligação antes de dormir, e tinha em mente que aquele tempo a mais de pé o levaria a sentir fome. Sentou-se ao canto da cama, ao lado do criado-mudo, respirou fundo algumas vezes e discou vagarosamente no telefone da cabeceira. Uma voz sonolenta o atendeu do outro lado, fungando:
– Oi?
– Caramba, cê tava dormindo?
– Quê?
– Não, se você tava–
– Não, tudo bem.
– Se você quiser voltar a dormir, tudo bem, eu–
– Não, eu tô acordada.
– Eu achei que cê ia tá acordada, esperando – Aguardou uma confirmação apaixonada que não veio – Eu até achei que cê fosse ficar incomodada deu não ligar.
– Não, eu tava esperando mesmo, mas acabei pegando no sono. Cê chegou tarde aí?
Ele estava com as costas arqueadas para baixo, o corpo pendendo para trás e o tornozelo direito sobre o joelho esquerdo, cutucando o sapato com a ponta do cadarço.
– É, eu acabei pegando trânsito, sei lá como, naque–
– Tá muito frio aí?
– Nada muito diferente do que tá aí. Eu acabei pegando trânsito naquele túnel novo. Não sei como dá pra ter trânsito uma hora dessa – Olhou pela janela e viu um mar imóvel de luzes uniformes.
– Escuta.
– Mas acabei demorando mesmo.
– Cê não vai acreditar.
– Conta.
– Adivinha, vai.
Ele riu, olhando para o teto, sem emitir som.
– Eu tô um pouco cansado. Conta, vai.
– Aquilo que eu tava esperando um tempão.
Ele achava que não sabia, mas chutou certo, sem inflexão:
– Chegou tua vez com a nossa senhora.
Ela pareceu acordada há horas:
– Isso! Chegou a minha vez com a Nossa Senhora. Cê acredita? Depois de–
– Caramba, finalmente, hein. Eu queria saber quem controla a agenda dela, porque desse jeito que ela é–
– Depois de seis meses na fila, cê acredita?
– Quer dizer, realmente é muito atarefada, não sei como ela controla.
Ele ria sozinho.
– Quem estava com ela antes de você?
– Tava com a Meire. Cê já sabia que ela era a última antes de mim na fila.
Ele inclinou-se para a frente, descruzando as pernas e apoiando o braço esquerdo no joelho:
– Como que ela tá?
– Eu ainda não peguei, mas ela fica num vidro, com–
– Quê?
– Eu disse que eu ainda não peguei a Nossa Senhora, mas que ela fica num vidr–
– Não, a Meire.
– Que tem?
– Como que a Meire tá?
– Ah – ela segurou o terço – Cê sabe, na mesma ainda... continua dizendo umas coisas esquisitas, que vai faltar no dia tal, que não tá lendo mais. E hoje eu não gostei nada da homilia, eu achei que deu ainda mais ideia pra cabeça dela. Esse padre novo–
– Que coisas esquisitas?
– Esse padre novo, ele é muito moderninho pro meu gosto.
Ele coçou o rosto recém-barbeado com paciência.
– Que que teve na homilia hoje?
– O padre falou de uma passagem. Famosa. Aquela passagem famosa que fala sobre a mulher que trai o marido e–
– “Quem dentre vós não tiver pecado, atire a primeira pedra”.
– Cê sabe de cabeça?
– Era essa?
– Era essa mesmo. Cê não sabe quase nenhuma de–
– O que que ele falou sobre a passagem?
– Acredita que ele disse que essa passagem ficou uns duzentos anos fora da Bíblia? Que tiraram das impressões porque dava a entender que não tinha problema pecar.
– Isso é porque eles acreditam que as pessoas são burras, né. Qualquer bom escritor sabe que é o leitor que faz a história, não–
– Sei lá. Mas esse padre novo ficou dando ideia pra Meire.
– O quê?
– Ela desmarcou o nosso encontro aqui em casa, cê acredita? Que a gente tem toda quarta, ela tá ficando doida.
– Mas que ideia que o padre ficou dando?
– Dando ideia, ué. De que a Bíblia nem sempre tem razão, que nem tudo que tá escrito ali a gente tem que seguir à risca, um monte de coisa assim. Por isso que eu não gosto de padre muito novo.
– O padre falou isso, é? Sobre a bíblia?
– E a Meire balançando a cabeça junto. Eu não sei o que deu nela q–
– Cê sabe que a Meire tá meio doida. Tem tempo isso. Como que não sabe o que deu nela? Quantos anos esse padre tem, cê sabe?
Ele coçava a têmpora direita. Seus olhos iam e voltavam das luzes da cidade para a única lâmpada acesa do quarto.        
– Mas eu achava que era um jeito dela mesmo, de ser doida. Agora, ficar com essas ideias de que não sabe se confia no que lê e–
– Olha, se eu fosse você, sinceramente... sinceramente, eu se fosse você eu me afastava da Meire. Duvido nadaquiapouco ela tá falando maluquice da braba mesmo. Pra você, inclusive.
– Cê acha mesmo? Mas a Meire é a minha única amiga lá da Igreja. Na verdade, ela é a única dium–
– Eu acho, sim. Esse padre novo é bonito?
– É única dium modo geral. Que que foi?
Repetiu sem clareza:
– Se o padre é bonito.
– Eu sei lá. Não fico reparando se homem na rua é bonito. Que dirá homem padre. Cê acha mesmo que eu tinha que me afastar dela?
– Acho. Mas você que sabe. Cê não reparou no padre, é?
– Escuta.
– Cê que sabe mesmo.
– Eu tô morta. Vou voltar a dormir, tá bem? Amanhã a gente fala melhor.
– Tá bem. Como que ela é, afinal?
– Quem?
– A nossa senhora. Como que ela é?
– Ela fica num vidro. É linda demais. Fica meio que emoldurada por esse vidro. Deve ter quase meio metro de altura, é gorda, sabe? Alimentada. Tem umas flores ao redor del–
– Cuidado com esse vidro, hein. Cuidado pra carregar isso.
– Eu sei, pódêxá. Ela tem umas flores ao redor da base, mas acho que são de plástico.
– Cuidado pra não quebrar esse vidro – Ele respirou fundo e encerrou – Tá bem. Vai lá, vai descansar.
– Cê comeu? Em que hotel que te botaram?
– Olha, pra falar a verdade, eu nem sei. É tanto hotel, que, pra falar a verdade, eu não sei. “Lê Chatô” isso, “Lê Grán” aquilo, “Dê big” nãoseidasquanta–
– Entendi. Bom, espero que cê durma bem.
– Tá bem. Vai lá. A gente fala amanhã.
– Fica com Deus.
– Obrigado.
Desligou e sentiu um desejo imediato de fumar um cigarro, mas havia parado fazia duas semanas, por queridas recomendações. Olhou o relógio e imaginou que ainda haveria tempo de conseguir algum jantar. Levantou-se com calma e dirigiu-se para o elevador.
Chegando no restaurante do hotel, foi saudado por um homem de bigode adolescente, voz fina e ombros largos:
– Boa noite, senhor, mesa para quantos?
Ele rapidamente olhou ao seu redor e quase imaginou que o rapaz estivesse sendo irônico, mas levou fé de que fez a pergunta por mero hábito.
– Somos apenas eu e a noite – respondeu na tentativa de quase parecer irônico também.
Foi levado a uma mesa retangular, exageradamente grande para ele, com treze cadeiras distribuídas ao seu longo. Sentou-se um pouco entre o canto e o centro e, enquanto virava seu pescoço para olhar o restaurante vazio, foi abordado por um homem de blusa social vinho e colete branco, claramente devotando toda a sua praticada fineza àquele que deveria ser o primeiro cliente do dia:
– Boníssima noite ao senhor. Bem-vindo ao Restaurante. Eu sou Garçom, e atenderei o senhor esta noite.
– Noite. Você sabe me–
– Fico felicíssimo em informar que o especial da noite é lagosta.
Ele raramente comia lagosta e considerou curioso que um lugar tão vazio a oferecesse como especial. Estando às custas da companhia, animou-se:
– Opa, que delícia. Eu gos–
– Entretanto, eu devo sentir muito em informar ao senhor que a cozinha se encontra fechada. Ainda assim, poderia oferecer ao senhor talvez um antepasto?
– Pode ser, obrigado. Eu queria saber se você sabe me dizer que horas é o café da manhã?
– O café começa tão logo se inicia o dia. O senhor gostaria de ver o cardápio?
Esticou a mão, sem responder.
Passou um bom tempo lendo e relendo o menu, como é típico de um homem que tem por ofício as letras. Confuso, chamou o garçom, que patinou levemente pelo ambiente vazio:
– Sim, senhor, o antepasto favorito da casa é a conserva.
– Pois bem, e que vinho você recomenda com a conserva?
– Tinto, sem dúvidas.
– E qual seria?
– O Tinto, senhor.
– Sim, mas qual?
Garçom travou o pescoço em um movimento lateral, sorriu como desconfiado e retirou-se em direção à cozinha, sem energia para participar de brincadeiras àquela altura da noite. O homem deu de ombros e olhou ao redor, juntando as sobrancelhas e deixando um pedaço da língua pender entre os lábios. Palmeou o restaurante do chão ao teto, buscando evidências do estilo arquitetônico aplicado, mas o local era inócuo. Entendia a ausência de pessoas pela média qualidade do hotel, mas estava um pouco espantado, afinal, era época próxima a um feriado.
Alguns minutos se passaram, o homem seguia sentado em sua mesa, na mesma posição, lendo um exemplar do jornal do dia que havia capturado na recepção. Subitamente, um jovem cabeludo e um bocado sujo sentou-se à mesa, bem no centro dela, curiosamente afastado do homem:
– Ao senhor boníssima noite. Sou Cozinheiro. O senhor me gostaria de falar?
O homem olhou para os lados e fez um bico, respondendo:
– O quê?
– Cozinheiro, prazer – o jovem adulto tinha as palmas das mãos sujas de um líquido vermelho – O senhor pediu a conserva, certo?
– Sim, a conserva.
– Pois bem, veja só. A cozinha não estava exatamente fechada. Quer dizer, eu me ausentei mesmo da cozinha, mas eu voltei, e, na verdade, eu achei que tinha deixado bem claro pra esses idiotas que eu ia voltar. Eles não entendem nada do que eu falo, nunca. Às vezes eu me pergunto se não deveria começar a deixar escrito, anotar uns recados, coisa e tal. Mas aí eu acho que pode até ser pior. Do tipo: “Por que vocês fizeram isso?” “Ah, mas você escreveu aqui no recado que era pra fazer” Sendo que, provavelmente, eu teria escrito algo que significava outra coisa. Não dá pra confiar nesses caras.
Como se esperasse uma resposta, sorriu, colocando sua cabeça mais à frente da linha vertical do pescoço. Havendo um vácuo, prosseguiu:
– Bom, eu tava ali dentro te olhando, e você me pareceu um homem de bom tom. Eu fui lá dentro ver o que a gente tinha de carne, e aí pensei em te preparar um coelho, o que cê acha? Inclusive, eu já peguei bem e chequei, o coelho tá b–
– O senhor me desculpa, é que eu não tô podendo comer carne vermelha.
Cozinheiro riu:
– Ora, em nome de quê? É cada uma. O senhor é vegetariano?
– Não, não é isso, é que é épo–
– Ora, então, tá decidido. Um coelho pro senhor.
– É época que eu não posso comer carne vermelha, senhor...? – Ele fez um gesto de leque com os dedos da mão direita – Como é mesmo o seu nome?
Soltou o ar três vezes pela boca e esticou a mão ensanguentada novamente:
– Cozinheiro. Ao senhor boníssima noite – disse, esticando a mão suja.
O homem não teve opção senão dar sequência ao aperto.
– Escuta, eu não posso. Inclusive, se a minha mulher sabe–
– Amigô – Ele piscou o olho direito – você tá vendo mais alguém aqui? A patroa não precisa saber de absolutamente nada, tá bem? E eu tô falando de nadinha mesmo.
Pela primeira vez, reparava na longa barba que mexia enquanto o outro falava. Resignado, deu-se por vencido.
– Tudo bem, o coelho, então.
Cozinheiro se aproximou e segurou a mão direita do homem, manchando o jornal apoiado sobre a mesa.
– Pois bem. O que faz o senhor acreditar que seja merecedor de um bom coelho?
– Mas como, merecedor? Do que você tá falando?
– Merecimento. Meritocracia. Alguma espécie de validação por meio de atitudes. Dar e receber em troca. Quem é você?
– Bom, eu sou um crítico d–
– Ora, ora, temos um crítico conosco esta noite! – disse, batendo palmas aceleradas. Uma risada muito alta e macabra veio de dentro das instalações da cozinha.
– O que te faz acreditar que você esteja em posição de criticar alguém?
– Olha, não é que eu acredite que eu esteja em posição de criticar os outros, é que simplesmente é o meu–
– O seu trabalho, eu sei. É o seu trabalho. Eu entendo mesmo. Trabalho, trabalho, trabalho. Trabalho às vezes é leve, às vezes é uma tortura, né? E cada um tem o ofício que merece, certo?
O homem inclinou lateralmente seu pescoço como um cachorro de cuja vista uma bolinha some.
– Bom, eu não sei, quer dizer...
Os dois se olharam no fundo dos olhos por alguns segundos. Cozinheiro interrompeu o silêncio:
– Veja bem. Eu não nasci pra ser crítico, não, senhor. Eu não nasci pra isso. Eu também não nasci pra ser cozinheiro, mas, vou te contar, tem dia que eu faço milagre nessa cozinha.
Ele aproximou-se da orelha do homem, roçando acidentalmente a barba no seu pescoço, enquanto cochichava em seu ouvido:
– Meu pai é importante. Mas eu não queria viver de fama, cêntende? Tenho que trabalhar, tenho que fazer por merecer, dar sequência ao meu trabalho. Vamos lá: você anda em dia com suas contas? Ou o que quer que seja que você mesmo decidiu que te serve de termômetro. Todo mundo tem isso, né? Eu acho. Umas coisas que se faz, tudo bem e tá ótimo, e, se não faz, fica meio mal.
O homem abaixou os olhos.
– Cé casado?
– Cê não acha que tá sendo um pouco invasivo? Eu só queria comer.
– É casado, mas não usa aliança?
– Olha, deixa pra lá, tá bem? Eu vou voltar pro meu quarto e vou dormir. E vou me certificar de que nunca mais eu fico aqui nessa espelunca. Gente doida.
– Não, não. O quié isso – Ele passou definitivamente seu braço por cima do ombro do homem – Fica aqui. Eu vou lá te preparar um jantar. E eu quero que cê fique relaxado, meu amigo. Esquece um pouco qualquer coisa que teja te incomodando. Sempre tem alguma, eu só ouço isso.
– O quê?
– Nós temos uma cesta de pães, que até que tá fresca. E o senhor pode tomar ainda o Tinto, tudo bem? Na conta da casa, pelo meu jeito irritado. Eu também sou filho de Deus, o senhor me desculpa.
– Bom... Olha, eu tô com fome e–
– Por favor, o senhor pode aceitar. É por conta da casa.
– Tudo bem. Olha, se você não se incomoda, você poderia me dizer qual é o vinho?
– O Tinto, senhor.
O homem socou e mesa e questionou:
– Mas qual?
Cozinheiro imediatamente pôs-se a rir.
– É isso, manter o bom humor sempre.
– Você poderia trazer um copo d’água junto com o vinho?
– Não se preocupa, aqui água e vinho andam sempre juntos. Ajuda a evitar a ressaca, não é mesmo? A cesta de pães já vem.
Levantou-se e encaminhou-se em direção à cozinha. Já de uma certa distância, chamou novamente o homem, gritando com a mão na cintura:
– Amigô! Eu acho que coelho nem é carne vermelha, é? – E entrou, rindo.
Contrariado, o homem comeu o pão até os farelos e o coelho até só sobrar suco. Chegou a considerar a hipótese de se embebedar, mas possuía talvez uma linha de pensamento que ia contra o senso comum daquele que se embriaga sem volta. Quanto mais longe de casa, menos inclinado a beber se sentia, ainda que fosse um bom bebedor. Em sua cabeça, quanto maior a distância de um berço onde cair bêbado roncando, menor a vontade de beber até o sono.
Saiu do restaurante o mais rápido possível, evitando encontros desagradáveis. Subiu com a cabeça latejando. Encaminhando-se de volta ao elevador, virou-se novamente para o lugar onde o jovem de bigode incipiente permanecia em pé. “Restaurante”, dizia a placa. Tomou o elevador e trancou-se na suíte.
Determinado, sentou-se à escrivaninha e acendeu a luminária. Sacou a caneta do bolso do peito e começou a escrever no bloco de notas que o próprio hotel deixava em cada quarto:
“Querida,”
Parou ali. Arrancou algumas folhas e reescreveu a palavra algumas vezes, até dar-se por insatisfeito. Num último instante, ilustrou mais uma vez a primeira linha com o vocativo e arrancou a folha. Dessa vez, dobrou-a e colocou no bolso da calça. Tropeçou até o criado-mudo, abriu a gaveta e encontrou-se frente a frente com uma bíblia empoeirada. Abraçou o livro entre as pernas e deitou-se de lado, com as roupas que usara durante todas as horas daquele dia. Tentou se entregar ao sono de luz acesa, como quem tem medo de não dormir e mais ainda de dormir.

SE EU FOSSE JULIO CORTÁZAR

Lia-se:
“– Dia longo?
Eu pausei entre as palavras. Ou eu as repeti sem perceber, não sei:
– Vida. Vida longa.
Eu não sou nenhum reclamão, eu nem sou de falar muito. Mas tem uns dias em que realmente a única coisa em que eu consigo pensar é na loucura cansativa em que a gente consegue se meter. E, quando vê, é leão atrás de leão. Aí a gente tem vinte, tem trinta, tem quarenta. A medicina matou a teoria da evolução, era pra estarmos morrendo mais cedo e ficando mais fortes.”
Iniciou-se tudo quando roubei da estante de uma cara amiga um livro. Quem ama livros entende que é o tipo de roubo fácil de se perdoar, se acompanhado de uma devolução dentro de um razoável período de tempo. Não foi. Não que me incomode muito; a maioria dos meus amigos, que, em sua maioria, são, na verdade, conhecidos, é composta de ladrões e ladras de artigos de arte amadores; os sujeitos, não os artigos. Aliás, os artigos acabam por se fazer indefinidos, após certo tempo.
Diria que mais de 2 anos depois me deparei novamente com o objeto larapiado. Eu já havia saído do país havia 6 meses e estava revolvendo a mala de livros, quando o encontrei num bolso falso nas costas da tampa. Foi feito achar um trocado no bolso de um jeans. Aparentemente, eu tinha tanto medo de que ele fosse roubado de volta, que o escondi como um esquilo.
É que o livro era uma queridíssima coletânea de contos do Cortázar. Foi o que me injetou uma paixão subcutânea por contos latino-americanos. Sendo franco, eu diria que despertou até mesmo o orgulho de ser latino-americano, fato que nem mesmo duas décadas de Brasil me proporcionaram, ao menos não nos termos propriamente ditos. Creio que isso seja porque a escrita do boom (eu e todos nós deveríamos não utilizar esse termo) gera em mim confiança. Posto que abrir e manter aberto um livro é, sim, um tratado entre quem lê e quem escreveu. Portanto, se mantenho meus olhos dentro das páginas de um argentino, isso significa que nele estou confiando, e, portanto, confiando em mim mesmo, enquanto potencial e gêmeo em desgraça, parte de um ritmo histórico. Dessa forma, pode-se compreender meu carinho pelo item outrora roubado. Outrora; hoje, é meu.
Pois bem, comecei a folheá-lo 2 anos após nosso primeiro encontro. Ele não me era nenhum estranho, todavia, naturalmente, a intimidade já não era a mesma de outros dias. De tal forma que esbarrei com memórias descoladas havia muito de mim: nas páginas vazias que sobravam ao fim da brochura, escrevi um conto, como quisesse enxergar palavras de minha autoria num papel velho, amarelado e desenhado tão sublime por Cortázar. Eu não tinha qualquer recordação de ter escrito aquilo (“Escreva bêbado, edite sóbrio”, já ouvi dizer, mas nem sempre a segunda etapa se faz presente), mas ali estava, independente e ainda brilhante. De tal forma que a personagem que acabara de chegar em casa cansada dava sequência a sua pretensiosa eloquência:
“Eu suspeito que ela tenha me perguntado isso porque eu tenho cara de cansado. Ou então ela só perguntou por conta da hora. Ou então nem ela sabe o porquê. Eu às vezes fico pensando se não a substituíram por um robô. Ou eu é que fui substituído. Só espero que não me cobrem por nada disso. Eu não tenho dinheiro pra bancar robô moderno que me pergunta se o dia foi longo ou que responde com 30 anos de idade na cara – com pausa entre as palavras ou repetindo as palavras sem nem perceber – que a vida é que é longa.
Sento na poltrona e ligo o entretenimento. Está aí algo que eu não me incomodo em pagar. Enfim, um momento de sossego num dia longo de uma vida longa:
–...e eu nunca conheci ele. Morei a infância inteira com os meus tios. A minha mãe era empregada, só que numa outra cidade. Ela visitava a gente no Natal. Ela não tinha dinheiro pra presente, aí trazia recorte de jornal com foto colorida da cidade grande. Eu guardava dentro de uma meia e de vez em quando ficava olhando pras fotos, imaginando como era a vida pro pessoal rico da cidade. Eu guardei as fotos durante anos, mas hoje em dia não sei onde elas foram parar. Quando eu fiz 16 anos, o meu primo mais velho me levou pra conhecer uma outra cidade que ficava lá perto da gente. Não era a cidade grande, mas já era maior do que onde a gente morava. Ele me apresentou pros amigos dele. Era tudo drogado. Os cara roubavam carro pra tirar grana pra droga e cerveja. Eu vou te dizer que se você conhecesse os cara e visse de perto, você ia achar graça. Era bobeira. Era ficar roubando pra tirar grana, pra precisar de mais grana e aí roubar mais. Mas não costumava ter maldade, por isso que eu digo que cê ia achar graça. Era tudo moleque querendo se dar bem. Num era nada diferente de neguinho playboy que gosta de farra e droga. Só que a gente tinha que vender droga pra poder usar. Eles só tinham que comprar. Só têm, né. Eu nunca fui bom em roubar carro. Porque o negócio de roubar carro é que você tá sempre tenso, porque alguém pode aparecer qualquer hora, você nunca sabe se o dono vai aparecer do nada. Eu assaltava casa. Era mais de boa. Sempre foi. Porque assaltar casa você não precisava ver ninguém nem se preocupar. Se são 3 da manhã e a casa tá quieta, se você não fizer barulho, tá tranquilo. E aí eu não precisava ver ninguém. Eu não queria machucar ninguém, eu nunca quis. Eu nunca fui violento. Eu sei que o cara que é rico e tem aquela casa, ele pode ser um monte de coisa ruim, mas ele tem alma, todo mundo tem alma. E eu nunca quis mexer com a alma de ninguém. E quando eu saía das casas, era o paraíso. Você sai, vende as coisas, em pouco tempo tá com uma cerveja na mão, e é o paraíso. E foram anos disso, foram anos indo e voltando com o meu primo, meus tios não sabiam de nada. A gente era obrigado a trabalhar de dia na oficina do meu tio e…
Esse é o problema. É esse mesmo. A televisão é uma desgraceira danada. A gente quer esvaziar a cabeça, a gente quer ser imbecil, e os caras jogam na gente uma bomba dessa. Eu não pago esse negócio pra ver desgraça nem mentira. Mas, pensando bem, às vezes um pouco de desgraça alheia me faz sentir um pouco menos cansado. De certa forma, é um pouco de emoção nesse marasmo que é a vida de trabalhador. A vida já é difícil pra qualquer pobre coitado que resolve nascer, mas tem algo a mais que complica especialmente pra nós: a gente nem tem tão pouco que não tenha nada a perder, nem tanto que nem precise dar a mínima. Assim, a gente vive preso nesse limbo que é sair e voltar pra casa todo santo dia sem entender muito bem o porquê, mas sabendo muito bem o porquê. Antes eu tivesse uma história excitante pra contar de madrugada entre anúncios de sabão em pó.
– ...e chega esse camarada lá em casa, no meio do jogo. Eu lembro de tudinho, tudinho… cê acredita? Tem gente que acha que eu minto quando conto. Eu falo pressas pessoas que elas não sacam que quando tu passa por um negócio desse, você não esquece nem o que você quer. O apelido do cara era Chanca, pra você ter uma ideia. Chanca. O coitado do Chanca, cara… Ele apareceu lá em casa no meio do jogo, bateu lá na porta me chamando. O Chanca nem era meu amigo, ele nem era amigo de ninguém pra falar a verdade. Mas por algum motivo o Chanca vivia em cima de mim, cara. Eu devo ser muito simpático. Eu não tinha problema nenhum com o camarada, ele só era pentelho. E aí ele me chamou de canto, fui lá atrás conversar com ele, eu já sabia que se o papo rolasse na frente da minha tia, era problema. O Chanca me puxa perto dele e me saca uma arma: “Pega a visão, Filé, pega a visão, moleque.” Porra, o Chanca parecia criança naquela hora, igualzinho o sorriso do meu sobrinho. Coisa de moleque. Arma vagabunda. Vagabunda. Vagabunda, mas automática. O Chanca me deu a porra do cano e começou a rachar o bico: “Porra, aí hein, Filé, vai deixar de ser mulherzinha, moleque! Tu não sabe nem segurar essa porra, negão!” Eu não sei pra que o Chanca foi soltar essa pra mim. Logo pra mim. Se você não tinha arma, tu era mulher. Tu era pior que mulher pra falar a verdade. A arma automática vagabunda do Chanca disparou na minha mão. Ali eu sabia que eu tinha mexido na alma dele e eu tinha acabado com duas vidas numa bala só, hoje eu entendo a...
O povo é dramático também. Qualquer desculpa é uma desculpa. O povo é sempre dramático. Eu nem sei o que faria com uma arma. Eu não mataria a Rafa. Se eu fosse matar a Rafa, eu mataria com um travesseiro na cara. Isso seria o suficiente, ela é tão pequena. Será que eu escaparia ou seria obrigado a cumprir um tempo na cadeia? Quem sabe não fosse nada mal. Um outro tipo de enclausuramento. E dizem que sobra tempo pra malhar. Eu pago a academia, mas vou duas vezes por ano, se muito. Mas tá aí uma outra coisa que eu não me incomodo em pagar: pela minha saúde. Eu me esqueci de comprar o sabão em pó que a Rafa pediu. O tiro devia é ser na minha cabeça, eu vou ouvir amanhã.
– E quando foi que começou a história da confusão com os carcereiros?
Ele vai cair no choro num instante.
– Carcereiro não tem alma. Eles não têm. Policial já é nojento, carcereiro consegue ser o resto. Bom, os carcereiros. É. Então. Todo mundo sabe que prisão aqui é tudo cheio de facção. E não tem muita escolha, ou você é de uma ou é de outra. Você tem que ser e ponto. O que aconteceu é que os caras pegaram um carcereiro lá que vivia enchendo o saco de todo mundo. Ele era o capeta. Quer dizer, eu achava que ele era o capeta. Enfim, os caras pegaram ele. Tal de Andão. O apelido do camarada era Andão, eu nunca entendi isso. Pegaram o Andão, enfiaram o pau no cara e deixaram ele lá morto. É óbvio que todo mundo da facção ia pagar por isso. Não é difícil descobrir esse tipo de coisa dentro de prisão, cara, prisão é um troço nojento, é tipo uma cidade mesmo, é tipo uma sociedade lá dentro, que não tem lei, é todo mundo cão se pegando, não tem jeito. Aliás, tem lei, a diferença é que as de lá funcionam. A única diferença é que não tem como tu descer mais. Aí umas noites depois tava tudo quieto demais, eu tava achando muito esquisito. Os cara riam, ficava rindo… dizendo que os carcereiro iam ficar na deles. Eu falava, irmão, eu falava, “Cês são burro, carcereiro é tudo nojento, porra.” Não deu outra. Umas noites depois, os cara entram num grupo gigante, apagam a luz, com pau e cacetete na mão, arma que dava choque e não sei o que mais. Se tivessem só dado porrada tava bom. Tiraram a roupa de todo mundo. Um bando de marmanjo pelado. Tava frio pra cacete. Escuro, mas tinha luz entrando de fora, tinha luz pra você conseguir ver o cara do teu lado, a careta do cara morrendo de medo. Um bando de marmanjo pelado, numa cela apertada, um do lado do outro. Todo mundo sem roupa. Os cara começaram a gritar com a gente. Botaram todo mundo de quatro. Todo mundo de quatro. Aí mandaram um enfiar a cara na bunda do outro, cara, a gente ficou com a porra da cara enfiada no rego do camarada da frente, tomando choque no saco, ouvindo que a gente era vagabundo, tomando cuspe na cara, que ia todo mundo começar a rezar pra tá morto. E eu rezei, cara. Eu fechei o olho e rezei. Eu comecei a lembrar da minha mãe, a minha mãezinha trazendo foto da cidade pra mim no Natal, eu lembrei do cheiro da minha mãe. Eu comecei a lembrar do cheiro da minha mãe enquanto a minha cara tava enfiada no rego de um nego, enquanto eu tomava choque na língua e no saco, enquanto eu tomava porrada de tudo quanto era lado e ouvia uma cela inteira cheia de marmanjo pelado gritar e rezar e pedir pelo amor de deus pra nego parar, nego gritando pelo amor de deus me mata logo, fazendo xixi sem querer. E eu nem sabia por que que eu tava ali. Naquela hora ali, eu queria outra pistola, eu queria matar o Chanca de novo. Eu não tinha que ter passado por isso. Eu nunca quis mal a ninguém, mas ali eu só queria uma pistola. E só queria morrer. Eu queria uma pistola e eu queria morrer.
– Você se importa de mostrar sua língua para a câmera?
Ele nem hesitou. Deve estar amando.
– Foi anos depois dessa história que eu saí. Quando você sai, é maluquice, cara. Teve um monte de gente que eu não pude enterrar, cê não acredita. Eu comecei a tentar procurar advogado, ir na polícia, tentar falar com gente bacana, eu ficava esperando em porta de hotel. Eu queria algum jeito de contar o que aconteceu e conseguir justiça pra minha vida. Ninguém sabe como é você sair e não ter pronde ir. Hoje em dia eu ajudo todo mundo que me pede ajuda. Às vezes algum camarada do tempo das casas me liga, dizendo que agora tá direito e que tem uma casa com umas lâmpadas pra trocar, tomada nova pra trocar, coisa assim. Eu tenho medo de aceitar. Eu só tive uma sorte na minha vida toda, eu só tenho uma sorte. A minha sorte é que Deus é fiel.
Desligo de supetão. Chega. Preciso dormir e descansar um pouco. Não sei o que me deu, mas essa semana bateu uma vontade danada de sair pra comer um bom peixe. Talvez um japa.”
Fecho o livro, rindo com a língua na bochecha. O Cortázar nunca escreveria isso.

DOIS IRMÃOS NA FRONTEIRA

O homem é gratuito e contingente.
Nenhum esforço é vão; é inexistente.
Não altera qualquer coisa, porque sequer existe.
- Alguém que leu “A Náusea”

É já comum que as quinze horas sejam um meio de nada. Costumam ser muita tarde para se lançar ao novo, porém pouca noite para o direito ao êxito. São uma fatia ainda mais inútil quando há muito se insiste uma mesma empreitada.
Havia duas semanas que os irmãos pedalavam suas bicicletas pela costa, em busca da fronteira. Um dia antes de se depararem com a morreba que lhes deveria apresentar os quilômetros derradeiros, o pneu dianteiro do mais novo furou, mas eles seguiam viagem: “Por que a gente não fica aqui mesmo na pousada? Depois tenta alugar um carro. Daqui em diante é só mais do mesmo, não é?” “A gente vai até o fim. São só mais alguns dias. Se você não conseguir, eu empurro para você.”
Até os raios de sol já se encostavam fatigados no casco do capacete do mais novo, quando deram de cara com a morreba. Preguiçosa, a luz derretia pelos ombros, desenhando o traje preto e verde colado aos corpos desconfortáveis e amadores. As poucas nuvens cochilavam brancas no céu, seus ouvidos saudosos do cochicho de um vento que já não dava as caras.
“Você está a sete quilômetros da fronteira”, lia-se numa placa em plano inclinado.
Um mês antes, o mais novo telefonara: “Que honra receber ligação de artista.” “A mamãe, bicho.”.
Um sinal de vida cruzava a rodovia no sentido estrangeiro. Era o mesmo caminhão-pipa que surgira uma hora antes. “Eles ficam subindo e descendo”, informou, estalando o pescoço. “É para levar combustível para os navios da costa. É um acordo entre os governos.” A trívia cruzou o ar solitária e foi-se deitar junto à terra que beirava a estrada. O mais novo ignorava a existência do outro, numa tentativa de fugir do irremediável quadro: eram os dois as únicas almas restantes.
O mais velho nunca fora príncipe. Temporão, não teve escolha senão o pai, de quem apanhou os trejeitos devidos, a tez incumbida e as teses de vida. O mais novo, artista de útero, tinha no colo da mãe o centro do mundo. Com o divórcio, separaram-se igualmente. Não fosse a ligação do mais novo, que ocasionara um convite persistente do mais velho a um passeio inédito, provavelmente só saberiam um do outro na morte seguinte: a de um dos dois. É bem verdade que eram da espécie de ser humano com destino inevitável, não importa o quanto debatessem internamente com suas faculdades. O mais novo foi para a mãe a chance de produzir a grande obra de sua vida. Tornou-se, portanto, a cópia exata de seus desejos, sonhos, movimentos e, naturalmente, dores e ojerizas. Cresceu sensível, pueril, virgem e insensato. Sua infância foi construída em tons infinitos, brilhante, esteticamente agradável, mas da natureza firme do que constitui a alma de um verdadeiro artista, artificial ou não: por dentro, solitária, doída, sem razão de ser, senão a própria construção. O mais velho dizia que progenitora fora perfeita, visto que sua criação era inquestionável sucesso: ela criou o filho cego que sempre sonhou em ter. Ele, por sua vez, na precisa loteria do desamor entre pais, acabou filho do patriarca. Sempre três anos à frente do outro, foi desenhado tão clichê quanto, embora de uma outra espécie: exímio esportista, matemático de nascença, um ás com as mulheres; cresceu e viveu engenheiro, com glóbulos oculares cifrados e fetiche por velocímetros rasgados. Acreditavam seguir a vida que lhes apetecia, sem ao menos considerar que poderiam ser travestis da própria vontade. Poderia ser dito que eram repetecos dos pais, mas nem isso. Em geral, para se repetir alguém, é preciso olhar para aquela pessoa, minimamente. Admirá-la, quem sabe, mas, de toda forma, querer roubá-la para si, querer tanto sê-la que se vive o outro dentro do próprio corpo, já que essa é a única forma de ser dono de alguém.
Estavam parados havia quinze minutos, debaixo do Sol. “Você está a sete quilômetros da fronteira”, a placa ecoava. “Se você não se levantar, a gente não sai do lugar, irmãozinho.”
Nada, possuísse ou não vida, parecia se mexer naquele lugar, nem mesmo as panturrilhas insistentes da dupla. O mais novo voltou a travar uma batalha com a resignação: “Quanto mais eu subir, mais rápido a gente chega. Quanto mais cedo a gente chegar, mais cedo isso termina.” Mas bastava encarar morro acima para se sentir besta; não havia saída aos olhos. O mais velho, por sua vez, retornou ao piloto automático. Com os ombros rígidos, empurrava a bicicleta de pneu furado que o irmão não lhe pedira para carregar.
Parece existir uma condição humana de crer no seio familiar até o último instante que antecede a morte, ainda que se aja na direção oposta. Como se houvesse de fato uma instituição capaz de salvar qualquer estrago e merecedora de respeito. Ora, o que mais poria duas pessoas que não se suportam a empreender uma longa travessia por um semideserto, rumo a um objetivo cujo único sentido útil de existência era não ser alcançado? Tudo em nome de laços de sangue já coagulados.
“Você está a sete quilômetros da fronteira.”
“Não sei se faz sentido isso. Porque eu acho que a gente deve estar andando faz mais de uma hora. Não?” “Não, não deve ter isso tudo, outro caminhão já teria passado.” “Será que essa placa está no lugar errado?” “Não, a gente ainda não andou muito, é uma ladeira muito inclinada. Segue, vai.”
Numerosas fatias de quinze minutos se passaram. A morreba não sentia sequer cosquinha dos irmãos. Permanecia imóvel, serena, milenar. O suor escorria quente pelas costas dos dois, que já não trocavam palavras de qualquer natureza, nem mesmo de ódio. O tempo não se arrastava. A noite não organizava sua saída das coxias. Na verdade, a tarde parecia haver se levantado robusta e imposto uniforme. Algo que até agora não havia sido notado começava a assustar o mais novo: não se ouvia som de absolutamente nada. Nem mesmo a típica poeira sonora que ronda o ar quando se está em qualquer ambiente e não se fala nem se pensa. Nenhum animal cruzava suas vistas, e o sol havia se estatelado irônico no teto dos céus, como que sabido da condição rancorosa das personagens em seu palco pessoal.
O pai nunca opinou em qualquer pintura do mais novo. A mãe nunca deixou. Do alto de seu ser, sabia que aquele homem jamais teria o esqueleto mental para tomar aquelas obras como realidade e apreciá-las em sua total genialidade. “A quantas anda aquilo?”, o mais velho ouvia com frequência. Ecoava a brutalidade nas raras ligações que fazia à mãe: “A quantas anda o próximo enfarto do seu pai?” Embora fosse deveras racional, sempre houve uma parcela do cérebro do mais velho que, senão triste, vivia confusa com a relação dos pais, afinal, o que ocasiona que duas pessoas que dizem que se amam passem a se odiar, de repente? “Talvez nunca tenham sido um par ideal, mas as situações os forçaram à união. É o que costuma acontecer quando se aposta no amor por conta de um acidente.” Acreditariam discordar, embora pitadas de diferença fossem mera formalidade: o mais novo tinha a crença de que sempre haviam se odiado, afinal, “Como podem as histórias de amor se converter num laço de ódio ainda mais firme e inexorável? O ódio valida e encerra o amor”, ele concluía, sozinho em seu quarto. “Por isso, deve-se amar até a última gota possível, para que, então, o ódio assuma e os nós se tornem de fato eternos.” Diz-se que a linha entre os sentimentos é tênue, mas pouco se fala sobre o assunto à luz da realidade. Se duas pessoas são capazes de se tratar, concomitantemente ou em sequência, com o mesmo intenso nível de amor e ódio, então, só há um significado nisso. E, por maior que seja o esforço para se separá-los e defini-los, há algo em sua natureza que os aproxima e leva um a querer se sobrepor ao outro, dando sentido a ambas as existências.
“É, isso está errado”, o engenheiro concluiu. “Sem dúvidas, trabalho de algum imbecil. Colocaram a mesma placa em toda essa maldita subida.” “Eu te disse. Não disse?” “Vejo pelo lado positivo: isso facilita para o nosso psicológico. Se a gente não sabe quanto resta, não pensa muito no caminho. A gente só pode andar, andar, andar. Até chegar ao destino final. Sem dúvidas a fronteira se aproxima.” E seguiu com uma risada combalida: “Veja como são as coisas. Isso é relativismo. Com a perda de um referencial claro, temos a impressão de que a ladeira não tem fim, de que a distância não diminui com o passar do tempo e dos passos. Um sabichão até diria que a gente se perdeu numa linha reta. É claro que essas placas não nos fazem nenhum favor. Mas, não duvido, logo mais veremos a planície que ela esconde.”
Quando o mais velho optou pela engenharia, foi como se qualquer resquício de uma amizade tivesse seu rompimento finalizado. O artista olhava para o engenheiro e não se enxergava, mas via através dele. Os anos se passaram, o mais velho enriqueceu em uma multinacional alemã, o mais novo estagnou na vastidão de um artista holandês.
Pararam para respirar. Não se olhavam, não reclamavam, não esticavam suas existências um ao outro. Para um tolo que os admirasse de fora, eram simplesmente um par cansado. Seguiram por mais trinta. A ladeira se dilatava. O sol os seguia imóvel.
“Eu acho que não aguento mais.” “Força, anda logo. Logo mais, logo mais”, falou com lábios mortos. Sentindo dor nos dedos dos pés, começava a comprar a visão do mais novo. “Você está a sete quilômetros da fronteira.” “Ao inferno com essa placa, então!”, pensou consigo. Mas à luz do Sol não se poderia oferecer o inferno, esta era impossível de ignorar e era o próprio fogo, inerte e sem pena de mortal algum.
“Você está a sete quilômetros da fronteira.”
Arrastaram-se por seus últimos vinte minutos. Esbaforidos, jogaram as bicicletas ao chão e caíram de quatro. O mais novo começou a vomitar. O mais velho, molhado, olhava ao redor, pacóvio. Dono de si, sorria e alongava o pescoço, com os olhos esbugalhados e as mãos tremendo: “De repente a luz ficou a pino. Eu não sei que diabos foi que a gente fez da nossa vida, eu e você. A não ser o que era esperado de nós, certo? Quem sabe se esse não foi nosso maior pecado? Ser o filho perfeito fez de mim um miserável e de você um inimigo. Só que eu nunca tinha percebido que você era perfeito também. Se eu tiver que ter com Deus, eu preciso que ele se lembre de que, antes de filho de qualquer um, eu quis ser filho dele.” Coçou os olhos e novamente olhou ao redor, buscando outra realidade. “Eu acho que o calor do Sol nos deixou confusos, irmãozinho.” “Os dois?”, o mais novo respondeu, com o uniforme de ciclista vomitado de bile. “É”, deitado no chão, com a cabeça caída de lado numa pedra. “Tem um Sol para cada um nesse raio de morro.”
Eram os últimos de quatro. Amaldiçoados pelo sangue, pelo passado e, a sete quilômetros da fronteira, pelo presente. Olharam-se, conscientes de sua condição. A fronteira existia. A da morreba. A da areia, a da poeira, a das nuvens adormecidas, sem vento, implacável.
“Você está a sete quilômetros da fronteira.” Eles riram juntos pela primeira vez em décadas.

O DIA SEGUINTE

O dia anterior deveria ter levado consigo ofícios e aparelhos, como se diz suceder às instituições que cruzam as linhas do tempo rumo à dissolução. Seria possível a uma certa alma nobre e casta – de convicções e humanidades, saiba-se – dormir e acordar crendo piamente haver se empregado finalmente novo mundo nas figuras e tipos que compunham os estratos até então. Àqueles que se diriam sensatos, restaria um abrir e um fechar de pálpebras ordinários, conhecendo-se as direções maiores – ou ao menos inferindo qualquer vista quanto a estas –, planejadas por aquelas personagens que teriam assinado ou corroborado com sentenças e decisões. Ao cabo de cem ou mil anos, entretanto, é que se poderá haver engajamento em uma ideia de que a verdade dos frutos será revelada; “e que doa a quem doer”, pensarão então, embora seja necessário ter em mente que direções específicas as dores e aflições já possuem há algumas centenas de anos. Tratemos, com o perdão da ficção, da perspectiva dos que creem e creram desde o início que as vinte e quatro horas anteriores haveriam levado consigo ofícios e aparelhos, como se diz suceder às instituições que cruzam as forças do tempo rumo à dissolução.
Imaginar-se-ia que o dia seguinte seria de uma ressaca homérica. Que a cidade, deitada em caos, confeitada e desestruturada, acordaria invertida, fresca, desigual – ou menos. Para a instalação de tal quadro, todavia, necessário seria que a noite anterior houvesse sido de infindável festa. Na realidade, pior do que calmas, as ruas, casas e pessoas permaneciam no mesmo assustador estado de normalidade. Pela metade daquela manhã, portanto, o pequeno Luís sentava-se à mesma cadeirinha de balanço na qual havia passado tantas das suas manhãs, nos fundos distantes de uma pequenina mansão. Saindo da casa, vendo-o ao longe, Ermírio Peçanha Granalcunha, um pouco mais velho, trotou em sua direção e admirou-se:
– Ora, eu imaginei que sua família estaria longe a essa altura.
O menino já tinha traços adultos em suas reações e soou inadvertidamente irônico, enquanto mastigava seu palito de dente:
– Achou, é? E por quê?
Luís sonhara com incômodas imagens na noite anterior, o que lhe colocara numa espécie de humor afastado. Em seu sono, avistara janelas retangulares, dispostas na vertical, espalhadas na infinita parede de um prédio-monumento cinza, com panos, bandeiras e farrapos pendurados para o lado de fora. Janelas com espaço o suficiente para a entrada de uma pequena provocação de sol.
O sorridente menino Granalcunha não tinha por más intenções a pergunta. De certa forma, acreditava no que havia dito, por insistência própria, dir-se-ia que por certa benevolência. Afinal, já havia escutado conversas do pai dizendo que, dois parágrafos ou cem, ninguém iria a lugar nenhum. Não porque ele não fosse deixar, mas porque não haveria meios para tal. Mesmo percebendo o outro em pá virada, Ermírio prosseguiu:
– Meu pai disse que–
– Eles nem são minha família.
– Quê?
– O Dodô, a Muda e o Carió. Eu não sou da família deles. Eu só moro cum eles. Eu já te–
– E por que cê não mora com seu pai e sua mãe?
Luís parou o balanço da cadeira e levantou num salto único:
– Já tá na hora deu ir fazer feira?
– Num sei, mas o Carió já tá trabalhando. Cê num tem medo deles, não?
Luís saiu pulando e assobiando em direção à pequena plantação da propriedade, assentando-se perto de um homem de olhos banhados em escuridão e de inquestionáveis modos táteis. Carió tinha o típico cabelo de algodão cinza, testemunhal de décadas de pés sujos de terra e gotas de testa nas palmas. Seu queixo proeminente, em figura outra, seria ameaçador e titular, mas em sua carne apenas encerrava a sequência que o desenhava com aparente fragilidade, junto a seus lábios cansados e seu constante mastigar de língua. Vivia descamisado, e os músculos do seu tronco, ainda resistentes, eram cobertos por uma pele enrugada e embranquecida em certas áreas, com a flacidez típica de um homem que já fora magno e valioso, cujo tempo passou. Aqueles poucos que conheciam Carió de perto, entretanto, sabiam, não sem desgosto, que era capaz, ele mesmo, de enxergar os vultos e os homens que nem mesmo a mais saudável das vistas faria fronte, ou a mais ensandecida. Sua voz cotidiana era doce e ausente de inflexões, como leite quente curando chaga. Poucas testemunhas confiáveis já haviam proferido tal caracterização, mas era dito que, em seus rituais e cantigas da escuridão, a garganta do homem era tomada pela força de lobos e cães da selva, uivante, solitária e fazendo eco a desejos ininteligíveis.
Luís tinha os lábios separados em formato oval, num ensaio, quando o homem interrompeu o silencio matutino, esticando a cabeça, sem se virar para a criança:
– Uquiéquio menino Luís deseja?
– Dia, Carió – ele mordia o lábio inferior, equilibrando-se em suas nádegas – Carió, o senhor... Eu... Eu queria ser iluminado.
– Cumé?
– Eu queria ser iluminado pelo senhor, Carió. Eu já ouvi o senhor conversando com a Muda, falando que achava que eu era o esp–
– O menino num tem idade pra isso.
– Mas eu tenho, sim, senhô.
O homem riu sem perder a vaguidão no olhar.
– O menino já é grande?
Luís já conhecia o questionário de cor.
– Sô não...
– Braço é duro igual rocha?
– É não...
– O menino já matou bicho no mato? Levanta cem saca de café num braço só?
Carió tateou o tronco de Luís, confirmando:
– O menino tem nem peito ainda! Cé garoto, menino Luís.
Luís achou que era hora do apelo maior:
– É que eu tive um sonho essa noite que–
Carió abandonou um pouco seu tom uniforme:
– O menino anda sonhando? Sonhando com o quê?
Luís se levantou de um salto e entregou a melhor descrição possível de suas visões. Sempre ficava desconfortável ao conversar com Carió, sem saber muito onde tocar, como explicar certas imagens, nem mesmo para onde olhar. Ele ia terminando, falando sobre a longa parede acinzentada, quando o homem gritou e atirou a enxada para longe, sentindo que não havia ninguém que pudesse ser acertado. O menino abaixou a cabeça para dentro da perna e começou a balançar o corpo para frente e para trás, miando. Carió se acocorou perto dele, levantou sua cabeça com suas duras mãos e, num movimento sutil e canino, aproximou suas largas narinas da boca de Luís. Como num sinal de conclusão, deu um tapa no pescoço da criança e ordenou-lhe que ficasse de pé:
– Tua hora chegou de ir vê a Muda.
Havia pouco o que se pudesse saber sobre a Muda, enquanto ser mundano. De posteriores fartas – dir-se-ia que doentes –, era forte como um quadrúpede de carga, o que lhe haveria rendido, em circunstâncias normais, qualquer apelido degradante que encerrasse tal ideia. Sua condição de fala, entretanto, era mais insistente e chegava antes de qualquer outra característica. Como ser elevado, era de uma natureza nada peculiar ao que se espera de uma figura de tal sorte. Emitia sons graves aleatoriamente, tinha cabelos espessos, armados, dispostos num perfeito arco ao redor da cabeça, com manchas que intercalavam o preto que lhe identificava antes e sempre. Era dona de um par de olhos vívidos, que se intercalavam entre a dispersão e a canalização. Seu rosto tinha bolhas secas e rosadas, uma das quais era próxima a boca e recebia distraídas lambidas o dia inteiro. Poderia ser acusada de bruxaria, se realmente se acreditasse que tivesse pensamentos dentro da cabeça que vivia agitando em curtos movimentos pendulares. À maioria dos poucos que a viram frente a frente, dava mais pena do que medo. Aqueles que sentiam sua presença nas noites iriam discordar, terço junto ao peito. Vivia metida na floresta, quando da madrugada, coletando plantas, bichos, voltando até mesmo com potes cheios de ar. Durante o dia, eram usadas suas patas de elefante para os resultados da fazenda. Não foi por acaso que o menino se chacoalhou em resposta a Carió:
– Eu num vô nada vê a Muda, não, senhor – resmungou, mas já imaginava que não tinha escolha – Eu queria era que o senhor me iluminasse.
Nenhum dos quatro – Luís, Muda, Carió e Dodô – havia festejado na noite anterior. As notícias haviam chegado difusas à fazenda, não sendo de grande interesse do pai de Ermírio que todos acessassem plenas noções de seu significado. Entretanto, o pouco que sabia sobre o assunto e a severidade do diagnóstico que fizera do menino permitiram a Carió que deixasse o labor sem se incomodar em conferir os arredores, puxando Luís com ele. A dupla se moveu da maneira mais ligeira possível a suas figuras, chegando à presença de Muda, que já estava com o nariz apontado para o chão e o braço direito esticado, com todos os dedos da mão em riste e receptivos. Antes de aproximar Luís da mulher, Carió proferiu sua análise:
– O menino tá fedendo. Tá com cheiro de sangue. Sangue velho e sangue novo misturado. Sangue que seca e sangue que escorre. O menino tá com cheiro de sangue no tempo, sangue que é nosso, mas que também é de gente que veio antes e vem depois ainda.
Como soubesse que era o suficiente para o pleno entendimento, empurrou o garoto, que não pôde evitar cair de cara na terra. Esforçando-se para levantar, empurrou o chão com seus dois braços e jogou-se num estalo único à posição vertical, seu rosto como que sem sinais aparentes de contato com o solo. De olhos fechados, deu dois quiques em direção à Muda e emparedou sua cabeça na mão estendida da mulher. Esta emitiu seus grunhidos, batendo com força os pés no fofo do chão. O menino encontrava-se tão concentrado no ritmo das batidas, que não percebera o braço de Carió estendendo uma pequena vasilha feita de casca de coco em sua direção. Como não encontrasse os lábios do menino, ele mesmo os esticou em bico, permitindo que o homem despejasse o líquido em sua boca. Não se sentiu surpreso ao perceber que não parecia haver nada dentro da vasilha, mas, dentro de alguns instantes, seu corpo caiu ao solo, ao que os outros dois deram as costas e saíram andando.

Luís abriu os olhos e viu um infinito pano cinza, estendido quilômetros acima de seu rosto, com inúmeros algodões sujos e gigantescos distribuídos ao seu longo. Minúsculos espaços entre eles libertavam um anil brilhante que dava ao menino uma sensação de que todos os dias de sua vida que lhe vinham à memória pareciam se haver arrastado, enquanto os anos, invisíveis, já contavam dez ou nove, não sabia ao certo, pois não tinha exatas as datas de nada, de seu nascimento, de seu pai e do pai de Ermírio, do grupo insólito que o acolheu naquela fazenda mediana, nem mesmo de sua mãe, que já era uma forma inexplicável e sem voz, apenas uma figura escura e borrada. Surpreendeu-se com a facilidade que encontrou para levantar, averiguando uma inédita estabilidade nos dois lados do corpo. Piscou com força algumas vezes. Durante um curto momento, mirou o chão, fazendo força nas têmporas, em tentativa de rememorar como chegara ali. Na inútil empreitada, não percebera que estava batendo os olhos numa superfície cuja natureza era incapaz de identificar. Rapidamente acostumado com a nova mobilidade, ajoelhou-se pela primeira vez na vida e tocou o solo com as palmas estendidas. Era impenetrável e preto, de um contato áspero com sua pele. Colou sua bochecha esquerda no solo, sentindo-o gélido. Quando levantou a cabeça, tinha pequeninas pedras grudadas em sua pele. Pôs-se de pé, limpando o rosto e mirando o horizonte daquela estrada que se estendia infinita à frente de seus olhos. Observando os arredores, deu-se pela presença de um homem a alguns metros, vestido em uma roupa que, embora não lhe fosse possível nomear, em muito lembrava as vestes do pai de Ermírio. Aproximou-se lentamente, percebendo que ele não o enxergava, embora não imitasse os traquejos de Carió. Parou frente aos seus olhos e fez sinais com as mãos, confirmando que era invisível ao homem, que não parecia estar vendo ou tomando qualquer ação quanto a sua existência. Suas bochechas, longas e enfadonhas, eram largas e caídas ao lado das narinas, seus lábios eram vastos e invasivos, porém não impressionavam Luís, que já se havia habituado com tais formas na figura bizarra de Dodô. Percebeu que o homem respirava lentamente, com as mãos no bolso. Tinha na altura de sua cintura uma caixa de madeira, que se erguia desde o chão e era decorada com itens desconhecidos ao menino, além de uma sinalização que ele era completamente incapaz de ler, embora pudesse afirmar que tinha números. Tentou contato com o homem, que se manteve imóvel às falas atiradas em sua direção. Notou que ele não lhe era familiar, embora tivesse um rosto que o menino julgou que poderia ver em qualquer tarde, nas visitas que volta e meia era obrigado a fazer à feira do porto da cidade. Não havendo absolutamente qualquer forma de interação com o homem, o menino saltitou pela estrada, por hábito. Não havia outras presenças, era tudo apenas o solo desconhecido e o pano cinza com algodões e com minúsculas fatias de anil, estendido e formando uma redoma que tocava o solo igualmente descolorido. Inócuo, o menino seguia uma reta pela estrada, até perceber, sentado ao longe, Ermírio Peçanha Granalcunha. Surpreendeu-se com o ânimo que sentiu ao avistar a desgostosa companhia que, diariamente, inquiria Luís com situações e andamentos que ele mesmo era incapaz de compreender. Gritou e correu como uma criança livre e saudável, como tantas vezes, sentado na cadeira de balanço, vira Ermírio fazer:
– Ermírio!
Percebera que o menino diferia do homem visto anteriormente, posto que sua presença se fizera sentida, embora não relevante. Sentado no áspero solo desconhecido, o pequeno Granalcunha esticou o indicador esquerdo nos próprios lábios, levantando ambas as sobrancelhas para Luís e fazendo bico. Com a outra mão, fez um sinal para que o menino chegasse mais perto.
– Eu acho que consegui contar. Eu acho que são vinte e três minutos.
– Ermírio, cê consegue me ver?
– Talvez eu tenha errado na conta, mas não tenho dúvidas de que são menos de vinte e cinco.
– Ermírio, o que é um minuto?
Um longo tempo se passou em silêncio. Como sentisse medo e Granalcunha fosse, mal ou bem, uma presença conhecida, Luís se deixou sentar e aguardar alguma resposta. Eventualmente, Granalcunha afirmou, balançando a cabeça:
– Se eu estiver certo, é agora.
– Ermírio – Ele puxava as mangas do outro menino.
Luís deu um grito de susto. Nunca em sua vida ouvira tamanho estrondo. Com as duas mãos cobrindo cada uma das orelhas, precipitou um choro, enquanto uma grossa nuvem de fumaça se formava ao redor de sua cabeça e do menino Granalcunha. Estava prestes a se entregar às lágrimas, quando percebeu que o outro tinha em seu rosto uma enorme meia-lua de dentes brancos:
– Eu acertei! Acertei! Vinte e três minutos, eu acertei.
Luís interpelou, segurando as lágrimas:
– Acertou o quê?
– Você consegue ver aquelas pessoas? – Granalcunha apontou para um imenso grupo que se estava estabelecido ao longe e que Luís não percebera antes – Lá no fundo?
– O que tem?
– Daqui a vinte e três minutos, você vai lá perto deles.
– Ermírio, o que é um minuto?
– Tá vendo isso aqui? – Ermírio apontou para um objeto em formato circular, com pedaços do que Luís achou que eram pernas de diferentes grilos que se movimentavam ao redor o centro, conseguindo, mais uma vez, ler apenas os números que estavam ilustrados em preto, no fundo branco do objeto.
– Toda vez que isso aqui dá a volta, é um minuto.
– E daí?
– Toda vez que isso aqui dá a volta vinte e três vezes... Bem, você já vai entender.
Luís coçava a cabeça careca.
– Olha, você não precisa entender exatamente o que é um minuto. Você, não. Talvez você possa se guiar pelos fatos que acontecem de tempos em tempos, entende? Então, você vai saber o que esperar a cada minuto, ou a cada grupo de minutos. Faz sentido?
Luís balançou a cabeça.
– Olha só. A cada vinte e três minutos, você vai ouvir aquele mesmo barulho. E uma gota vai cair ali.
Ermírio apontou para a sua frente. Era uma ampulheta gigante, que se estendia por cima do pano cinza, até onde não era mais possível enxergar nada a não ser névoa. O menino sentiu-se imediatamente atraído e aproximou-se. Agachado próximo à base, apertava os olhos para entender a natureza do líquido que, a cada vinte e três voltas da perna de grilo, gotejava. O material era escuro, vermelho, grosso e inerte. Luís deu algumas pancadas com as juntas da mão no vidro, apenas para sentir que ele era de uma dureza infalível. A altura ocupada do recipiente já ultrapassava duas vezes o tamanho do menino, que, sem obter qualquer resposta, virou-se novamente na direção de Ermínio, apenas para perceber que ele não estava mais lá. Imaginou que faria sentido aproximar-se do grupo de pessoas apontado pelo outro garoto, na intenção de entender o que eram vinte e três minutos e para que lhe seriam úteis.
Quanto mais perto chegava daquelas pessoas, menos sentido encontrava em suas figuras. Elas possuíam vestes engraçadas, coloridas, nada parecidas com qualquer coisa que Luís já avistara em sua existência, mesmo quando da passagem de nobres e realeza em certos feriados nos quais obtinha permissão para ir ver os desfiles com Ermírio. O menino queria manter a compostura, mas foi impossível não tremer a espinha e embarreirar os olhos, à vista próxima do grupo. Nenhuma das pessoas parecia possuir um rosto formado. Era como se usassem máscaras lisas e claras, pintadas com pó branco, presas em seus rostos para sempre. Mesmo sem bocas, pareciam emitir sons, risadas, gritos. Dançavam em círculos, de forma desorganizada e agitada, segurando pistolas douradas, com detalhes em tinta verde. Agora quase dentro do grupo, Luís os reparava gigantes, sua vista frente a frente com inúmeras canelas que vestiam meias de todas as cores diferentes. Olhava para cima e ouvia as risadas agora mais grossas, fúnebres, ecoando pela floresta infinita de pernas em que se encontrava.  No momento em que destilava ódio pela própria existência e pelas vidas de Muda, Carió e Dodô, deu um salto inconsciente, em reflexo à a mais um estrondo. Dessa vez, em meio àqueles seres grotescos, o som era ainda mais doloroso, e a fumaça, ele entendera, tinha sua origem ali, já que ele só enxergava branco ao seu redor. Sem opção ou ímpeto que não o de seguir em frente, Luís se pôs a correr sem direção, até que conseguisse sair daquele cheiro de queimado que lhe era, como tudo naquele lugar, desconhecido e familiar. Sem lógica nenhuma em sua corrida, levou certo tempo para se ver livre, quando percebeu que estava, novamente, naquela estrada bucólica e infinita, formada por aquele material que enegrecia e gelava o solo.
Prosseguiu por um longo tempo, durante o qual não conseguia manter nenhuma linha reta de pensamento em sua cabeça. Tinha a impressão de ouvir gritos, chamados, nomes, até mesmo de sentir duras mãos em seus ombros, mas não era capaz de se convencer quanto à realidade das impressões. Quando já aceitava a eternidade de seu destino, embora não soubesse o que fizera para merecê-lo, nem por que Muda e Carió o haviam deixado ali, deparou-se com o mais inexplicável de todos os curiosos objetos até então. Era uma estrutura sem forma definida, pintada de branco. Imaginava que não fosse madeira, pois o material parecia liso demais, sem falhas. Possuía alguns pedaços pintados de preto, com saliências que se deslocavam para fora do que era branco, na parte superior. Em toda a sua área, Luís notava buracos uniformes em aparência e disformes em distribuição. Como o tempo não incomodasse mais e os vinte e três minutos não mais se anunciassem ao longe, sentou-se ao lado da curiosa estrutura e contou seus mais de cem buracos, um a um, embora só soubesse contar até dez. Perdendo a conta que nunca existiu, convenceu-se, por fim, que havia mais buracos naquela esquisita estátua preta e branca do que estrelas no céu da fazenda. Voltou a escutar chamados, dessa vez mais claros. Levantando-se, seguiu um pouco depois de onde estava jogado o objeto desconhecido, de onde pareciam vir as vozes, que se configuravam como lamentos e choros. Dando alguns passos incertos, de repente Luís se deparou com cinco cabeças decapitadas, deitadas uma ao lado da outra, distribuídas sem organização. Como não as conseguisse enxergar claramente, o menino se aproximou e sentiu um embrulho no estômago ao avistar em definitivo a cena. Mais curioso do que enjoado, foi passando de cabeça em cabeça, a um palmo de cada uma, dando-se conta de que era a mesma cabeça cinco vezes. Sentia certa familiaridade com elas, embora não soubesse o porquê. Foi quando abriu os olhos de uma e notou, na esclera, única fração alva daqueles homens, a mesma pinta que ele sabia ter no seu olho direito. Puxando a cabeça pela longa barba que saía do queixo, abraçou-a e deitou-se no chão gelado, adormecendo seus ossos cansados.

Acordou numa curta e firme inspirada de ar. Dessa vez, os céus eram os de sempre, e a dificuldade em levantar-se era a corriqueira. Notando que o menino acordara, Muda, Carió e Dodô se aproximaram, distribuindo-se os três à frente de Luís. Era raro ver os quatro ocupando o mesmo espaço no terreno, e as feições neutras e determinadas dos demais assustavam Luís, mais por sua novidade do que pelas cenas recentemente presenciadas. Como se tudo viesse sendo ensaiado há anos, deu-se uma inequívoca e sangrenta sequência.
Num golpe seco, com as próprias mãos grosseiras dos braços graciosamente curtos, Dodô enfiou o indicador e o do meio em cada um dos olhos de Carió, fazendo-os imediatamente saltar de suas concavidades e pousar, numa parábola serena, dentro de um saco de pano escarlate, que aparentava ter sido costurado por Muda. Quase no mesmo deslocamento, quando sua mão voltava do arco desenhado, Dodô sacou do bolso do peito uma pequena lâmina, entregando-a nas mãos da mulher, que, sem um segundo de intervalo, fez um corte longo em cada lado do inchado nariz de Dodô, elemento que sempre impressionara o menino Luís, embora reparasse que havia alguma familiaridade entre aquele órgão e o seu, fazendo com que sua ponta caísse, também em movimento calmo, dentro da costura escarlate, que, sem que Luís percebesse, era agora segurada por ele. Mirando o rapaz como se fosse a primeira vez, Muda lambeu lateralmente o gume da lâmina, num movimento único e firme, caindo para trás e deixando que a língua cortada fizesse seu caminho gravitacional para dentro do pequeno saco de pano.
Luís assistiu à cena sem se mover, enquanto pôde, até que seu desequilíbrio o obrigasse a sentar. Ia e voltava com os olhos do primeiro corpo ao último. Carió de pé, com os braços esticados para baixo, num conforto tamanho que não era de se chocar. Dodô, afogando-se, com um pedaço do rosto descoberto, revelando o cálcio de seu nariz. E Muda, verdadeiramente quieta pela primeira vez, abrindo e fechando a boca sem parar, revelando uma cachoeira de sangue que, eventualmente, talvez servisse como algum adubo para a plantação.
Percebendo a ausência de testemunhas, levantando-se em seu salto típico, Luís começou a quicar seu caminho em direção à saída frontal da fazenda. Tinha o saco escarlate em suas mãos suadas e o segurava como se dele dependesse sua vida. Passando pela janela da sala principal, foi capaz de perceber a voz da irmã mais velha de Ermínio:
– Eu adorei. Tem tantas cores diferentes, todas juntas, formando uma estampa bonita, uma harmonia. Coisa que não se vê em nenhum outro vestido do mundo.
Suspirou de olhos fechados, aquela doce voz lhe afagando o rosto e secando as lágrimas. Chacoalhou a cabeça, sacou um novo palito de dentes do bolso sujo e pôs-se a mastigá-lo. Fez sem dificuldade seu trajeto até a porta da fazenda, por onde passou sem olhar para trás. Em instantes, estava na estrada e pensava exclusivamente no conselho diário que ouvia de Carió: “Cuidado com a destreza corporal”. Nunca compreendera aquelas palavras iniciais, mas entendia plenamente o significado de evitar a capoeiragem, embora nunca mais à atividade houvesse se dedicado, desde muito novo. Sabia das maneiras dos homens o suficiente para entender que o conteúdo do saco escarlate poderia lhe causar problemas. Fez um ligeiro movimento de encaixá-lo em sua cabeça, amarrando as pontas de trás, sem permitir que os órgãos que carregava caíssem. Assim, com a fronte vermelha de pano e sangue, um par de olhos, um nariz e uma língua pendendo em contato indireto com sua nuca, palitando a boca desdentada, tomou o mesmo rumo do caminho da feira de sempre, assobiando suas cantigas e imaginando o que seria quando crescesse.
A milhares de quilômetros de distância, do outro lado da poça, um operário inglês desejava “dia” para a família e sentava-se à mesa para apreciar uma boa xícara de café brasileiro.

NO VAGÃO CERTO

Vivi quase 25 anos de repartição até que chegasse aquele dia e, ao sair de casa atrasado pela primeira vez, eu acabasse pegando, embora sem querer, o vagão certo.
Não havendo o que fazer quanto ao inédito atraso, optei por ignorar o correr das horas, de forma que eu vinha lendo tranquilo, no bom metrô diário, um conto do Adolfo Bioy Casares que mencionava violinos, violinistas, mortes e almas. Dizia um dos personagens, metido a escritor, comprovadamente pescoçudo e um tanto bronco, que, assim como melodias surgem entre violino e violinista, almas surgem da relação entre movimento e matéria.
Entre a estação Sáenz Peña e a São Francisco Xavier, entram dois rapazes. Já ia eu pensando que delirava – ou que ao menos a ironia estava viva e solta – quando um deles, ao passo em que o outro anunciava a próxima estação, sacou um violino, plugou o danado a uma caixa de som portátil e alocou-o ao ombro, com o queixo bem colado, como se vê, a gente que é ignorante, que faz um correto violinista. Pensei rapidamente que não haveria de ser delírio, pois justamente acredito que o poder da literatura conosco faça o inverso, faça-nos levar nossas vidas e fantasmas para dentro das palavras com as quais nos deleitamos, ao invés de trazê-las para o mundo e materializá-las. Isso por um motivo simples: nenhum de nós se equipara aos literatos da história. Aquilo que eles colocaram no papel está além de nossa vã existência, e somos nós que tentamos imaginar dentro do universo por eles proposto, e não o mundo deles que se coloca dentro do nosso.
Eu não vou mentir que ando estressado. E não é que por isso me sinta especial, posto que dez de cada dez ao meu redor carregam um semblante de quem dorme menos do que deveria, come pior do que o recomendado e transa com o órgão das calças, ao invés da cabeça. É que eu ando mesmo estressado e me valho desse fato como justificativa para ter feito o que fiz nesse dia. Ando eu estressado também com as tias do colégio dos meus tempos de infância e os meus pais e até talvez os pais do mundo todo que eu vi; todos tão preocupados em evitar que tivéssemos picos de açúcar no sangue antes do jantar e em certificar-se de que havíamos absorvido Bháskara, que pouco disseram sobre matemática financeira, armários embutidos, corporativismo e, principalmente, sobre o fato de que o amor pode ser coisa que dá e passa e, quando passa, deixa dor em quem fica.
Esses estresses conjuntos ensaiaram se desarmar sem relutância, ao primeiro cruzar de notas do violino pelo vagão carregado de corpo e vazio de vida. Foi o segundo momento de constatar que não era alucinação a chegada de uma alma ao violino segundos após que eu lesse sobre almas e violinos: a minha pobre cabeça seria incapaz de criar e, portanto, descrever o violinista. O rapaz do bandolim, tudo bem, me pareceu sazón, mas o rapaz do violino era de uma figura dessas tão anacrônicas que fazem com que nos sintamos débeis que alguém tenha a desfaçatez de beijar as bochechas da mãe ao sair de casa com aquela aparência. Mas que digo eu? A maioria dos músicos sequer deve ter mãe. Ou não andariam com essas barbas; nem mesmo com instrumentos, para começo de conversa.
Além de um tapete no rosto, o violinista tinha um nariz carregado, nada singelo, imponente de uma forma pacífica. Seus intermináveis caracóis regiam-se brownianamente pelo couro, descendo até o pescoço, tornando-se curioso lazer para quem neles focasse enquanto ouvisse o monólogo do seu violino. Até hoje, falho em compreender a necessidade da presença do rapaz do bandolim, exceto pela primazia com a qual carregou o chapéu, ao fim de tudo. Embora o vagão piscasse intermitentemente, o violinista usava óculos escuros dignos da gravação de um clipe num conversível que rodasse por serras do norte da Itália, com uns bons raios solares naquele rosto pontiagudo que, em sua provável pobreza material, gritava com a provável pobreza de espírito que os meus pretensiosos companheiros de vagão, repetições, porém não réplicas, dos outros do vagão anterior e de todos os vagões que já cruzaram os túneis cariocas, carregavam em seus paletós, bolsas e maletas.
Começaram com música que fora tema de abertura de novela, nos emblemáticos anos 2000 brasileiros. Nada novo, pensei com a primeira nota. Mas o violinista, indiferente aos meus ouvidos, que davam sinais de falha em sua indiferença, estava por acaso ferrenho em me empreender um desarme das guardas, uma a uma, e, da segunda vez, era o cais e era a eternidade.
Solene, abracei de uma vez por todas o que ainda não aceitara integralmente até então: não haveria de ser alucinação. A comprovação final foi fatal e me esticou simetricamente os cantos dos lábios, que pareciam ter vida própria, bem como meus dedos do pé: o vagão inteiro construíra-se numa tumba de mortos-vivos que haviam finalmente descoberto um ruído de emoção em seu cansaço eterno a muitos palmos do chão.
A rabeca reluzia os fracos e variados raios de luz do vagão, cegando meus olhos para tudo que não a fosse e não fosse o homem de posse dela - ou em sua posse? Ele, por sua vez, ecoava em cordas o tímido cortejo que lhe havia oferecido o vagão, como se provasse, de uma vez por todas, que se é preciso muito pouco para multiplicar almas, quando se faz fricção pelo amor aos sons do aço cromado em lá, que nada mais são do que o jeito do homem conseguir falar aquilo que pela boca nunca sairia, não porque não fosse capaz a laringe, mas porque o cérebro não alcança nunca o coração.
Surdo pela tranquilidade do violinista, mesmo com tanta coisa pela frente no dia, eu só era capaz de escutar, então, o meu coração, que devia estar tão alto por estar tão próximo à boca. Ele não gritava, não tinha notas, não tinha comentários, parecia estar só de passagem para que eu me recordasse da sua existência. A diligência do violinista fez de mim um ser minúsculo, mais pela inesperada humildade do que pela inveja típica do ser amusicado. Eu era por dentro qualquer coisa.
E era externamente imóvel, a fitar não mais o violinista de blusão colorido enfiado para dentro da larga calça preta que arrastava pelo chão, cobrindo seus pés, mas, isso sim, as inúmeras possibilidades que a vida apresenta e que a gente nega. Fitava eu, naquele instante, o adolescente que me fugiu pelos dedos inertes, os quatro ou cinco anos que não escolhi e que me torturaram sem trégua durante a vida, as tardes em que li e copiei as coisas erradas e as noites em que pensei, suado e possuído, em mulheres que nunca teria. Eu olhava, espantado, para mim cheio de dedos nas mãos encardidas, sentado ao acaso de uma casa empoeirada qualquer, vendo atrás de mim nada a não ser metrôs indo e voltando, e deles sentia a brisa metálica em minha espinha, como se eu fosse mesmo parte daquilo, tendo criado raízes artificiais que, mesmo podres, eram formadas por tal liga que nem a mais imponente força da vida poderia arrastá-las para fora do lugar. Eu vi filhos patéticos, frutos do patético encontro de dois seres apáticos, grandiosos apenas em sua ociosidade e seu temor. Eu vi que as fragrâncias da juventude são o mais perto que se chega da morte por escolha própria, e que isso sim deve adicionar algum sentido à vinda dela ao nosso leito passivo, e que eu, sem essas fragrâncias, sem um motivo que se faça querer morrer de qualquer jeito, de amores, de dores, de sonhos e de revolta com o mundo e com o velho que um dia o jovem será, nada tinha que me tivesse feito desejar a morte, e, talvez, aquele que em juventude nunca desejou a morte provavelmente nunca esteve tão perto do significado de estar vivo que tenha percebido que viver é completamente ridículo, uma brutalidade tamanha que não se pode desejar a ninguém, uma força tão implacável que não se é possível sair do encontro com ela carregando qualquer resquício de vigor, de forma alguma, não é e não pode ser, e nisso mora o prazer daquele que goza desse encontro, que é, na verdade, um embate. Eu vi de relance uma cabeceira clara, onde jazia um copo d’água com dentes falsos dentro. Se ao menos eu pudesse dar um palpite de que os dentes mastigassem com frequência mais ainda do que o bom e o melhor, mas o diferente! Mas não, eu via que as próteses reluzentes, mesmo limpas, não conseguiam deixar de carregar as cores que só a papa eterna do arroz com feijão consegue deixar. Eu não mais ouvia o violino, cuja estridência, confesso, desde o início não me fora exatamente sedutora, mas via o homem que, com gracejo e uma confiante timidez, trouxe a mim a percepção de que eu era na vida a mesma coisa que eu era no metrô, e que a própria vida e todos nós éramos e somos a mesma porcaria. Eu fitava com indiscutível precisão o meu dia a dia insistente, a minha reincidência na simplicidade acidental das minhas horas. Durante alguns compassos, eu senti, dentro e fora de mim, o homem que nunca tive a coragem de ser.
Aquele dia, estático, perdi minha estação.
Aquele dia, decidido uma única vez nas minhas cinco arrastadas décadas, não saltei na Carioca, como mandam meu boletim diário e meu ponto.
Aquele dia, aliviado por antecipação, desci na Cinelândia e busquei o Amarelinho. Como estivesse fechado, segui para o boteco mais próximo, bati humoradamente no balcão e pedi uma cerveja, deixando bem claro que muito pouco importava a temperatura, visto que o termômetro apontava 19 graus naquela manhã de terça invernosa carioca.
Aquele dia, rebati os olhares de julgamento das senhoras e dos trabalhadores que passavam, utilizando-me da implacável ciência de paralelos e meridianos: diabos, já havia de ter passado do meio-dia em algum lugar do mundo.
Aquele dia, no vagão certo, o violinista tocou o foda-se.