SEDEX 10


Para seres de boas intenções anda faltando espaço no inferno, haja vista a ocupação que aqueles têm feito deste. Haverá alguma seção especial para as pequenas atrocidades cotidianas? Tais quais, digamos, as escolhas que certas almas ignóbeis fazem por oferecer, quando de festas infantis, ovos de codorna encapsulados em fritura, dando a entender que se poderiam tratar de coxinhas? Ou, quem sabe, imperdoáveis pecados como os da natureza de carregar um maldito guarda-chuva sob uma angelical marquise, quando das intempéries que deixam os despreparados afogados e irritados? Há de se considerar que assim possa ser. Haverá, contudo e sem dúvidas, um espaço reservado com clemência e solenidade aos homens, os pobres e indefesos homens, que padecem das doenças que são fruto do incorrigível e teórico amor que sustentam pelas mulheres, objeto maior da felicidade masculina, como sempre foi — mas não para sempre será — ensinado que o devem respeitosamente ser. Não é mentira se disseres que de casos de tal natureza a própria vida está lotada, basta ligar a televisão, caminhar pela rua, ou mesmo tapar os ouvidos ao ouvir gritos no apartamento ao lado. Ainda assim, talvez, se o leitor ou leitora tiver um minuto ou dois, possa perceber que ainda é possível se chocar com atrocidades de tal sorte, como a mim me ocorreu quando do conhecimento desta história. Isto poderia provar, de uma vez por todas, que para ser humano novamente, basta abrir os olhos. Dito isso, é importante avisar que definir a coisa toda como um mal-entendido, ou mesmo reconhecer que as atitudes tenham sido mal planejadas, seria quase um elogio, sem dúvidas um ato leviano, tendo em vista que os particípios dariam a entender algo.
O homem desceu de dois em dois a escada do seu prédio sem elevador, carregando uma larga caixa retangular. Ele morava no segundo andar, e seu apartamento tinha uma dessas varandas cujo piso é o mesmo da parte interior do imóvel, um piso composto por hexágonos de um vermelho pálido, um material liso e escorregadio. Na tal varanda, umas samambaias mortas suspensas pela parede, o vidro com aquele aspecto de casa onde viveu um adolescente, cheio de adesivos de antigas rádios famosas e marcas de carro colados em sua base, bem como uma charmosa cortininha dura e amarelada de esperma seco. As plantas, num momento recente, estiveram verdes, porém, desde que o amor se fez em pedaços, o apartamento ficou às traças, como se poderia esperar que ocorresse a quem não sabe fritar um ovo. Já havia um bom tempo que o homem não sabia o que fazer do que tinha feito. Ao trabalho não ia. À família não dava notícias. No início daquela semana, arrancara o telefone da tomada, e não só almoçava e jantava uísque, como com uísque escovava os dentes. Em alguns momentos do dia, deslizava nu pelo apartamento — mesmo os fantasmas sofrem no verão tropical —, cochichando palavras sem sentido e gritando, volta e meia, o nome da ex-mulher. Houvera uma batida ou duas na porta, em algum desses dias, mas ele não as ignorou, porque sequer as escutou. Sempre havia um instante em que se sentava ao piano e tocava insistentemente o mesmo dó, na mesma oitava, olhando para o chão e se arrependendo de um milhão de coisas ao mesmo tempo, dentre as quais o fato de que fez apenas uma aula do instrumento antes de dispensar o professor particular. Nada dos seus dias fazia um sentido claro, com início, meio e fim, a não ser a caixa em cima da mesa da sala. A maldita caixa, que sentara ali no mesmo lugar, desde o primeiro dia em que a mulher já não mais se fazia presente como antes. A maldita caixa, que reservava dentro de si os fragmentos do que ele acreditava ser a solução de seus problemas românticos, a chance de se reencontrar, de uma vez por todas, com o amor perdido. A maldita caixa que ele, agora, após escovar os dentes, carregava ferozmente ao descer de dois em dois as escadas do seu prédio sem elevador.
Ele e a ex haviam sido um bocado felizes. Sim, enquanto não eram ainda marido e mulher, etiquetas que os transformaram, como em um passe de mágica, em um par de patos apáticos que passava mais tempo sentado no sofá do que de pé pelo mundo, que dirá deitado na cama. Seria injusto afirmar que eram infelizes juntos, porque a ideia de infelicidade só é conhecida por quem a deseja enfrentar e compreender, estando reservada, portanto e de forma irônica, àqueles que, no curso da vida, esbarram com um ou dois momentos de genuíno esvaziamento do ser, a inquestionável perfeição de não existir e ser Terra. Assim, eram um casal como outro qualquer, resignado, diário e dando voltas cegas ao redor do Sol, na velocidade do ponteiro maior. Por isso, justamente por isso, por serem tão normais, por serem tão profundamente indistintos do restante do planeta, é que o amor se havia encerrado, pelas serras monótonas e cegas da dispensa doméstica. Incrivelmente, era esse mesmo estado de normalidade, a quase exata forma como seu amor um dia se apresentara, que poderia ser a salvação da alma do homem e a reserva de um caminho rumo ao feliz para sempre.
Saindo do prédio, ele rumou heroico até a avenida principal, abraçando seu tesouro de madeira. Conseguiu com a cabeça chamar um táxi, cujo motorista, provavelmente pelo aspecto cadavérico do homem, não hesitou em perguntar:
— Ô, meu amigo, tá passando bem?
Com um gesto que deveria ser lido como uma negativa, ele apenas respondeu:
— Correio! Correio! — E, sem pensar nas implicações, entrou no banco do carona mesmo, quando o motorista lhe abriu a porta.
Deu-se o início dos dez minutos mais longos da vida do homem. O taxista, passado o primeiro momento de uma impressão maior, já havia adentrado pelas trivialidades que provavelmente compõem algum manual que estes profissionais recebem quando se cadastram em uma corporação. O engarrafamento era incômodo, porém não mais do que o desconforto de ficar segurando a caixa tão perto da narina alheia. Num gesto indiscreto, o homem a puxou o mais perto que pôde do próprio colo, olhando, com o pescoço escondido, para o taxista.
— Pacote precioso, hã? — o taxista observou humoradamente — É bomba? Se for manda pra sogra! — completou, soltando aquelas clássicas risadas-tosses de um fumante que já passou dos cinquenta, com uns resquícios daquele barulho que parece um gato miando com dor de dentro do tórax.
— Sogra? — o homem replicou com curiosidade, a cabeça inclinada para o lado.
É lógico que a vida a dois nunca é fácil. E a maneira como homens e mulheres são criados desenha em cada um formas diferentes de aceitação ou rebelião ao modelo, uma vez que se está fatalmente inserido dentro dele. Seja qual for a perspectiva de cada sexo, dá-se determinado ponto em que ambos mergulham no mesmo marasmo, aquele que já era planejado pelas instituições de séculos passados e que fora premeditado por quem prestou atenção nocente às Helenas que foram nascendo sem parar desde 81. Até aí, não há literalmente nada de novo — embora não deixe de ser absolutamente curioso que se viva o mesmo molde de relacionamento num apartamentinho no Rio e nos idos de outrora, quando orgulho e preconceito eram ideias até cômicas, em vez de ideais e sombras de estruturas —, de fato, nada de novo, o problema é como cada um passa a lidar, em geral e na ótica estereotipada das coisas, com a situação. Da mulher não me encarrego, pois essa personagem já a humanidade inteira cansou de reviver e enterrar, todos juntos e formando a mesma mão. Agora, o homem, o tal homem, frustrado com seu casamento e continuamente alimentando a ideia de que deveria ser o objeto maior de desejo de uma mulher, não soube conceber a ideia de ser exatamente a mesma coisa que uma samambaia na varanda sem muita incidência do sol, o que — não me pretendo aventurar nesta seara — muitos usariam como bom motivo para uma pteridófita ir se esticando para conseguir mais água e mais luz, água e luz novas. E não seria surpreendente se descobríssemos, possível fosse um aprofundamento na mente de uma planta que não produz flor, semente nem fruto, que o inesperado encontro com novos lençóis que hidratassem a alma bastaria para que o componente físico do ser se apegasse ainda mais a suas raízes e tivesse, por fim, o espírito perfeitamente fatiado em dois. O que quer que espírito, corpo, alma e raízes sejam. Para além do contexto matrimonial, é necessário que se diga, um dos dois do primeiro casal sem dúvidas gostava de Legião Urbana. Aqui, não me pretendo definir qual, posto que não desejo induzir o leitor a se afeiçoar mais ou menos a um ou a outro.
O homem, nada apegado a ideias mundanas naquela semana, tentava responder às falas do taxista com notável secura, embora este não respeitasse seus sinais de desconversa:
— Isso pra mim tem nome: libertinagem. Isso aí é libertinagem. Na minha ép—
— Vou descer aqui mesmo.
— Como é?
Ele olhava para o trânsito e para a cidade, pelo vidro da frente, fazendo movimentos rápidos e confusos com o pescoço:
— Eu vou descer aqui mesmo. Tá muito trânsito e eu tô com muita pressa.
— Mas, amigo, a gente tá a uns minuti—
— Pode ser vinte? — Ele esticou uma nota para o motorista.
— Tá até demais.
Quando o taxista botou a mão no bolso da social de manga curta para pegar o troco, o homem já havia disparado com sua caixa em mãos, por entre os carros.
Talvez, neste instante, seja louvável admitir que eu tenha feito certa desfeita à história e ao leitor ou leitora. Que as simples palavra deste texto não possam fazer justiça à incredulidade que este feito deve despertar, isso já era sabido. Porém, talvez não se faça claro um simples fato: a caixa que homem com tanta destreza carregava em sua corrida não era absolutamente leve. Pois tente, você, imaginar o peso de uma caixa que carrega todo o seu amor dentro dela. Tente imaginar que, mesmo dividido em pedaços machucados, o amor ainda encontrará um peso similar ao original, seja qual for o formato. Feita esta devida colocação, segue-se a história entendendo que os esforços dedicados pelo homem àquela corrida não deveriam ser considerados como nada menos do que insanos.
Não foi sem dificuldade que ele pisou no escritório dos correios, pegando uma senha e sentando-se, ainda agarrado ao pacote. Como é comum a dias de semana, a quantidade de idosos era muito superior ao que deveria ser considerado razoável, quadro idêntico ao que se encontraria em ruas, bancos, correios, praças. Aparentemente, aguardar a morte ocupando instituições públicas e privadas que as pessoas passam a vida inteira tentando evitar é o modus operandi da melhor idade. Seria de se esperar que, em sua mente perturbada, o rapaz não tratasse carinhosamente nenhuma das senhoras que o antecederam, emitindo, inclusive, alguns xingamentos, embora não muito nítidos, a uma figura ou outra. Entretanto, já próximo ao final da empreitada, vislumbrando novos horizontes para o seu coração, mergulhado nas hipóteses de sua nova vida amorosa, ele simplesmente cantarolava popularmente românticas líricas mal musicadas. A qualquer senhora que o avistasse, ele tinha a questionável e clássica aparência de um bom rapaz.
Quando chamaram sua senha, ele levantou-se, caminhou ao guichê e deixou cair sobre o balcão a caixa, praticamente num movimento único:
— Boa tarde, senhor — A atendente tinha um sorriso exagerado para mais um cliente qualquer.
— Boa tarde, senhoritã… — Ele queria ser conciso, porém sem deixar a educação de lado. Procurou um crachá e não encontrou. A moça o completou:
— Isabelle, senhor — Ela gargalhou, como se gargalha não do que se disse, mas do que se está prestes a contar pela milésima vez — Ia ser Isabella o meu nome, mas o meu pai estava pê da vida com a minha mãe quando foi regist—
— Ótimo, Isabelle. Eu preciso desse pacote enviado da forma mais rápida o possível, como faço?
— Bom. Qual é o peso do pacote? Dêxeu ver — Ela esticou os dois braços para pegar a caixa, que era pesada demais para ela conseguir puxar sentada na cadeira. Ela se levantou e riu, sem graça — Nossa, pesado, né?
Quase insultado, mas em nenhuma posição de atrair qualquer tipo de atenção, ele prosseguiu:
— Pois é. Então?
— Primeiro, a gente precisa só embrulhar, rapidinho — Ela parecia um esquilo — Senão, vai que abre, voa pedaço pra tudo quanto é lado?
— A coisa ia ficar feia.
Ela trouxe o plástico bolha e pacientemente protegeu a caixa, tornando a dirigir sua animosa palavra ao homem:
— A gente consegue enviar pra chegar até às dez da manhã de amanhã.
— Tá perfeito.
No dia seguinte, ao chegar em casa, Patrícia recebeu do porteiro um pacote enorme. Vendo o nome do remetente, respirou fundo e contou até dez, obtendo ajuda para chamar o elevador. Sem pensar em nada, abriu a porta do apartamento, jogando o peso todo para o lado esquerdo do corpo, largou sua bolsa no sofá e rasgou o pardo que envolvia a entrega, para descobrir uma belíssima caixa de madeira muito lisa, com um pequeno envelope colado em sua face superior:
“Querida Patrícia,
Quando você me deu o ultimato, eu estremeci por completo, você sabe disso. Eu, cujo pecado foi, desde sempre, amar demais. Eu, um homem cuja dor agora o dirige muito mais do que à insanidade completa, mas, isso sim, à clareza total de seu espírito! Eu passei muito tempo sem dormir, buscando entender seu pedido, refletindo, e eu sabia que haveria uma saída, pois sempre há. Assim, te envio dentro dessa linda caixa o presente que acredito simbolizar que não há mais barreiras para o nosso amor. Você me disse, se lembra? “Ou ela ou eu”. E está feita a escolha, encerrada no que você recebe agora. Saiba, entretanto, que não me é indolor tal entrega, nada que é dela me poderia ser indiferente. Quero dizer, portanto, que não haveria sido senão por amor incontrolável e juvenil que cometi tal vil ato, sendo demasiado exigente de meu coração que fosse capaz de amar não apenas duas mulheres ao mesmo tempo, mas duas mulheres de tamanha beleza, de tamanhos efeitos ao pobre coração de um simples homem, que, eu sei, jamais deverá poder ser tido como culpado de qualquer coisa que não amar em exagero, como ensinaram o meu pai, as letras, as noites de domingo e mesmo a minha mãe. Assim, dentro desta caixa você irá encontrar os fragmentos do que um dia já foi o corpo de Malu, agora esquartejado e esfregado com alvejante, tudo feito num formato artesão e límpido. Espero eu que você possa tomar isso como símbolo maior do meu amor por você. Finalmente, saiba, acima de tudo, que não houve razão para qualquer atrocidade por mim cometida, que não a dependência da minha existência em relação a tua.
Com carinho,”
Com as palmas suadas, Patrícia colocou uma mão sobre a superfície gelada da belíssima caixa de madeira e a outra no lado esquerdo do peito.

PROFESSOR CURI

Acordar para a modernidade é perceber que cagar lendo revista se tornou algo antiquado. Como diria meu neto, um ato vintage. Eu não tenho dificuldade nenhuma em aceitar os novos tempos, diferente de muito velho por aí que só alcança uma ereção quando bate uma continência homenageando o passado. Eu tenho preguiça disso, porque parece que essas pessoas não entenderam o sentido de ser adolescente naquela época: o mundo tem muita gente, muita estrutura, muita teia micro e macroscópica, se alguma coisa ficou no passado, é porque é ao passado que ela pertence. Mas também não vou dizer que não compreendo essa gente. Anexar-se à história é viver sob uma charmosa ilusão de que houve mesmo um instante singular em que éramos filés, sadios, celebrando um mundo que se reerguia, findas as atrocidades. Entretanto, é preciso ter a coragem de fazer as pazes com a natureza dos dias, de forma que envelhecer é perceber que nem tudo o que você toca vira ouro, embora tenha sido lindo nascer e morrer na juventude feito um Midas.
Algumas passagens me aparecem como o nascer do sol. É curioso. Quando você é jovem e cisma com algo, vai jurar que aquilo se dissolve com o tempo, vai se apoiar nisso. É nessa circunstância que mesmo os viúvos do passado, antes de o serem, aceitariam o comportamento do tempo, porque soa conveniente. Contudo, permita-me estragar um pouco as coisas para você: você não vai esquecer. Há pensamentos que não te abandonam nunca, memórias que não descansam do posto, não importa o quanto você queira — quanto mais você quer, mais deixa de querer —, não importa a carruagem das décadas. Vai parecer gozação, mas é como a dor no testículo que eu sinto há mais de trinta anos. No testículo esquerdo. Incomoda na hora de dormir, desde que eu consigo me lembrar, quando me apoio no lado direito do meu corpo e o meu testículo desliza pela coxa, dependurando-se solitário, mas eu nunca tive a coragem de levar a um doutor ou uma doutora. Creio ter me acostumado com a dor na bola, o que não significa que em um dia sequer ela tenha doído menos. Assim, há lembranças que são certas como o nascer do sol, após uma noite de fisgadas.
O raio de luz do rosto redondo do Curi me invade a memória com frequência, sem jeito, barbudo e com um par de belos óculos meia-lua, deitado no concreto de um terraço na Ilha do Fundão. Ele tinha um jeitão gozado de andar pela sala, como se quisesse a qualquer momento se sentar ao lado de um par de alunos e puxar um assunto sobre a semana dele, usava umas roupas engraçadas mesmo para a época, umas camisetas de botão com estampas floridas, meias de cor, ele até variava as cores da armação dos óculos. Na verdade, antes de qualquer coisa, tem algo muito importante sobre o Curi: ele era perfeitamente fora de época. Hoje em dia, se você o visse, chutaria ser um daqueles camaradas do edifício Argentina, em Botafogo, mas, naqueles dias, ele era qualquer coisa menos isso, e qualquer coisa menos do que você imaginaria de um professor de Teoria Literária I numa federal sob o regime. Eu não tenho a mais remota ideia de como ele chegou até ali, mas era um exercício pessoal divertidíssimo chegar completamente derretido na aula dele e ficar imaginando em que outras posições eu conseguiria colocá-lo, para ver se deixava, uma vez que fosse, o rosto dele tão colorido quanto suas roupas. Eu teria conseguido imaginar o Curi em outros universos, uma espécie de astronauta tímido e contido, sentindo-se em casa no espaço sideral, conseguiria vê-lo como ator, quem sabe, mesmo até qualquer um desses caras que funda um jornal comunista e convoca pessoas para distribuí-lo pela rua, ele, com aquela barba falha de comuna — não é exatamente falha, mas, se você já viu uma foto do Che, sabe a que me refiro —, com aqueles pelos que desenham aquela curva do pescoço, como o Rolo do Mauricio de Souza.
Eu não acredito que fosse coincidência a minha fixação pessoal com ele. Para além do distúrbio catatônico em que visualizá-lo doidão nos anfiteatros da faculdade me colocava, havia algo que o Curi não expressava que me chamava muito a atenção. Boatos sempre existem nos corredores das instituições acadêmicas, e eu passava tempo suficiente jogando sinuca no diretório para saber dos pormenores que circulavam sobre o divórcio dele. Embora eu sempre tenha sido a favor do benefício da dúvida, era impossível deixar de notar que a atitude do professor mudara da água para o vinho, contra a maré do que se esperaria de um homem em luto: foi aí sim, solteiro, que ele passou a se colorir, falar mais alto dentro das salas, oferecer um pouco mais de sorriso a uns e outras… Infelizmente, acho que ele nunca fez o tipo galanteador. Talvez por isso mesmo seu andar pela sala tenha ficado ainda mais esquisito depois que ele assumiu esse modo pavão.
A nossa relação teria se mantido dentro das minhas viagens em sala, se não fosse pelo dia em que ele me pediu para ficar um pouco depois do fim da aula. Eu não desconfiei de qualquer coisa, mesmo porque eu vivia em modo satélite, o que fazia com que meus raros retornos à Terra fossem permeados de uma confusão generalizada, talvez por conta do fuso. Os alunos se dissiparam, e, quando pisquei, eu estava sentado na primeira fileira, o Curi de pé na minha frente, com os braços para trás. Esse dia ele estava exageradamente carnavalesco, com uma blusa de botões de manga curta, estampada com várias bananas, a armação dos óculos laranja, fazendo um estilo inteiro tropical. Ele fez um pouco de cerimônia, não como quem não soubesse o que dizer ou por onde começar, mas como quem tinha ensaiado exatamente como levaria a conversa, sabendo, portanto, que havia certa sensibilidade em iniciá-la. Depois do que eu posso jurar que foram dez minutos, ele aproximou-se da minha mesa, botou as duas mãos na borda e disse, olhando em diagonal para a janela ao lado:
— Eu ouvi dizer por aí…  Eu fiquei sabendo que você sabe das boas.
— Das boas?
— É. Que você é o cara.
Eu tive aquela curta irritação de maconheiro, quando a gente percebe que vai precisar jogar carvão na cabeça por alguns minutos. Meu olhar cruzava diagonalmente o dele, enquanto eu olhava para a porta, com a língua nos dois dentes da frente:
— Cê se divorciou por agora, não foi?
Os olhos, o nariz e a boca dele se embaralharam no seu rosto:
— O que isso tem a ver?
— Não, nada. Eu—
— O que isso tem a ver?
— Eu só achei que a gente podia começar a conversa de um jeito amigável. Se conhecer, minimamente. Meus pais são separados — Eu estendi a mão para um aperto.
Ele soltou o ar aliviado e sentou-se ao meu lado:
— Dois anos de casamento.
— E acabou?
— Dois anos de casamento em dezembro. Acabou um pouco antes disso.
— Pedreira, bicho.
— A gente se conheceu na faculdade, a gente queria eventualmente mudar pra Paraty e fazer barcos, ela era desenhista industrial, quer dizer, ainda é, tá viva, né, depois desses dois anos eu acho que a...
Justamente como acontecia com todas as pessoas que eu conhecia, com exceção do Guito, eu não tinha absolutamente qualquer intimidade com o Curi. Contudo, também como acontecia com muita gente, ele subitamente sentiu um conforto e uma liberdade em se abrir para mim. Uma menina que eu conheci na feira do Lavradio me disse uma vez que eu era bom em ouvir as pessoas, mas eu já concluí algumas vezes que simplesmente, naquela minha época, o intervalo entre eu receber uma informação, processá-la e proferir uma resposta — quase babando durante o processo — dava às pessoas um vácuo após suas falas que elas ou interpretavam como mais espaço para falar ou como um silêncio desconfortável. Em ambos os casos, como isso diferia do processo normal de uma conversa sã, em que as pessoas disputam quem consegue falar mais, a maioria dos meus diálogos ia acabar desembocando em histórias de família, chororôs que para mim mantinham-se inexplicáveis e, volta e meia, um beijo na boca repentino. Eu até achava a figura do Curi psicodélica, com todas as cores e tal, mas eu sentia muita fome naquele instante para estar pensando em beijar um cara com blusa de banana e meias laranjas.
— Então?
— O quê?
— Cê tá olhando para a frente tem uns cinco minutos.
— Pedreira, bicho. Cê tá se sentindo bem?
— Escuta, Ângelo. Eu não queria te incomodar com esse papo, beleza, bicho?
Pensando hoje, eu entendi o que ele queria comigo desde a primeira palavra, mas achei que seria boa hora para tirar um sarro do academicismo como um todo. Pena que às vezes nem eu mesmo capte o tempo do meu humor. Eu finalmente disse, com um ar que deve ter sido sarcástico:
— Professor, o senhor está querendo sugerir algo?
— Sugerir?
— É. Sugerir que—
— Bicho — Ele botou a mão no meu ombro e relaxou ou braços, rindo — Eu só poderia ser mais direto se eu te desse um tapa na cara.
Eu tive uma lenta reação de me afastar e elevar os punhos em posição carateca. Levantei as sobrancelhas e fiquei quieto. Ele finalmente soltou:
— Eu quero fumar bagulho, camaradinha.
Meus olhos rolavam como máquina caça-níquel acumulada, congelando nos cifrões. O Curi era o melhor tipo de pessoa para passar qualquer coisa: ele não era metido a hippie o suficiente para manjar do que estava comprando, mas usava roupas coloridas o suficiente para não se ligar muito em preço, pelo simples fato de que ele gostaria de se sentir parte do “movimento”, fosse o que fosse o “movimento”, eu não sei nada de história, mas acho que a coisa mais perto que se chegou de um hippie no Rio de Janeiro foi adentrar o sítio dos Novos Baianos em Jacarepaguá, e mesmo assim, se você pensar, talvez isso tudo fosse mais parte de um acidental plano econômico do que de uma ideologia. O Brasil não teve guerra mundial, Vietnã, a gente vivia sendo retratado como descendente de índio, pacífico, da paz, como se nada nos incomodasse. Eu estou apenas tentando ilustrar a diferença entre protestar pacificamente e não protestar também pacificamente, não que eu admire norteamericano nem nada, é só que as pessoas têm a tendência de romantizar nossa história sob a ótica lá de fora, é que nem esse papo de chamar a molecada de millennial. Não me entenda mal, eu seria o primeiro a deitar na frente de um tanque, mas não me desce a ideia de que índio apanhava sem reclamar. Quando a gente chegou a ter o momento de ter que se rebelar contra as estruturas do sistema, a contracultura já era muito parte do sistema popular — se é que ela sequer existiu fora de Botafogo —, e os perigos eram próximos e verdadeiros demais para a gente viver doidão de ácido em sítios em Jacarepaguá, dando as mãos e cantando em roda, era preciso estar dentro das salas de humanas, debatendo e incorporando os espíritos dos índios que deixaram para trás cemitérios amaldiçoados. O Curi seguiu no complemento do seu pedido:
— Às vezes eu sento em casa, fim de noite, depois de um dia de trabalho. E fico pe—
— Opa, Curi. Sabe o que é, eu preciso ralar pra almoçar.
— Fico pensando se haveria algum jeito de suprir essa falta, sabe?
— É que realmente passando de meio-dia começa a me complicar.
— E eu vejo vocês, alunos, deslizando pelo campus feito zumbis. Chapados, anestesiados, alheios.
— Não precisa ofender, não tem necessidade.
— É quando eu concluo que talvez a melhor companhia para um homem solitário possa ser, realmente—
— Dizem que uma taça de vinho por dia faz bem.
— É. Só o que não dizem é que dá no mesmo se for suco de uva. E eu fico pensando, quem sabe, que a melhor companhia para um homem solitário é um baseado.
— Um baseado, bicho?
Eu levantei em movimentos lentos, de forma que ele prendeu seus olhos de cachorro abandonado em mim e me acompanhou até a porta com sua vista. Ainda sentado na cadeira, ele perguntou de longe:
— Já era?
Até hoje eu não posso deixar de lamentar profundamente. Olha, veja bem, eu me orgulho muito dessa geração que criou o “já é”, é louvável e eles são frutos da nossa árvore, mas a minha tristeza reside no fato de que nós o tivemos na ponta da língua e ele nos escapou. Nós vivíamos dizendo que “já era”, como não pensamos em simplesmente jogar isso para a frente? O que me tranquiliza é pensar que, assim como as maiores pontes do mundo não poderiam ser construídas sem concreto e sem cálculo, e o cálculo não existiria sem quem quer que tenha sido que influenciou o Newton, o “já é” seria impensável se nós não houvéssemos carimbado o “já era” em nossos dias. No fim das contas, a molecada nos deve gratidão.
Naquele momento, eu já tinha algum sentimento específico pelo Curi, não exatamente pena, mas era algo que me levou àquele convite do qual me arrependi no segundo seguinte:
— Vamos fazer o seguinte, Curi. Amanhã é sexta. Eu e um camarada meu costumamos subir no terraço da reitoria depois da aula. Se quiser, você tá convidado, beleza?
Ele balançou a cabeça infantilmente:
— Amanhã eu dou aula até seis e meia. Depois fico livre, bicho.
— É isso.
Toda essa história se deu na época em que ainda tínhamos horário de verão. Ainda faltava uma meia hora para o meu último tempo acabar, mas eu já estava em frente ao prédio da reitoria com um cigarro de palha aceso, olhando para o jeito do sol de uma hora antes namorar o mangue que bebia do laguinho que bebia da Guanabara, que ainda não era tão nojenta, mas que já era prometida de ser restaurada, como se restaura uma baía natural? Eu costumava ficar imaginando que se fizessem uma reportagem sobre o transporte público nas capitais, e escolhessem falar da Ilha do Fundão, elencando as três melhores maneiras de se chegar até lá, sem dúvidas a primeira seria encher uma banheira e tirar o vácuo do ralo, permitindo-se ser sugado pelas tubulações e eventualmente sair no lodo do mangue, com algas ou qualquer coisa no corpo — isso se não se optasse pelo trajeto do vaso sanitário. Aquela era uma dessas sextas em que você sai mais cedo da aula e lhe é concedida uma sensação de controle do espaço-tempo, vendo a vida acontecer em câmera lenta, no lugar da sensação de ser um vagabundo fora de hora. Era uma dessas sextas em que você olha ao redor e sente uma gratidão inexplicável por qualquer traço de movimento, pensando nos siris enterrados, no amargor de um copo de cerveja dentro da mesma boca que não escovou os dentes do café da tarde, na sanfona das portas dos ônibus, gritando agudas, imaginando que haveria um fim de semana para começar, aquele estalo dentro do sangue, inúmeras possibilidades numa orgia descabida, a humanidade inteira nua na cabeça de quem desejasse que fosse impossível alcançar mais uma volta ao redor do eixo do planeta, a juventude rompendo a membrana de qualquer que seja o nome de uma camada muito alta da atmosfera, atingindo a via láctea na velocidade do pensamento e explodindo num sentimento lindo de existência no ar, sem náusea, sem muito questionamento, afinal, muita gente morre sem querer e por acaso, muita coisa acontece em Tóquio quando a gente pisca, isso em tempos em que havia muito mais tempo para ficar olhando para o nada e se sentindo estar vivo, olhando o horário de verão atrasar a noite e castigar os sovacos quentes dos universitários. Dos maconheiros aos religiosos, dos coloridos aos de cor, dos pobres aos ricos, fosse como fosse, você torcia para que todos tivessem a sexta-feira mais intensa da história da humanidade desde Baco, como se a gente pudesse pegar uma pistola e dar um tiro no peito da lua, acabando com as estações e as segundas, mas permitindo que ela agonizasse um pouco pelo espaço, uma bexiga furada, para manter algo das marés funcionando, deixando a praia aberta para mim, para os pobres e até para os que não precisavam pegar ônibus, isso tudo quando ainda tínhamos horário de verão.
Eu estava parado no ponto de encontro, o elevador do saguão do prédio da reitoria. O Curi veio segurando sua bolsa de couro atravessada pelo corpo.
— Tá de luto hoje, Curi?
— Hein?
— Tua roupa tá mais escura que o normal.
— Minha mulher. Ela foi embora numa sexta.
— E isso é pra ser uma espécie de homenagem? — Ofereci um trago da palha para ele.
— Não, obrigado.
— É?
— Eu chamaria mais de uma espécie de luto salutar.
Eu não pude deixar de rir. O Curi estava com uma aparência desconfortável, quase com aquela cara de “se eu correr ainda pego o ônibus cedo”. Era meu dever fazer uma última checagem:
— Geralmente, a gente precisa esperar pelo menos o sol cair, o movimento lá na reitoria abaixar. Aí a gente sobe de escada.
— Isso ainda vai levar pelo menos umas duas horas.
— É pra isso que serve o Bar do Mangue.
O Curi abriu a boca e soltou um som sem sentido. Eu joguei meu cigarro no chão e expliquei pra ele que se havia algum buraco no planeta onde ninguém ia dar a mínima para um professor e um aluno biritando numa sexta, esse lugar era o Bar do Mangue, afinal, muito mais do que uma descrição geográfica, o seu nome fazia referência ao lodo de sensações e personalidades que lá se afundavam, numa mistura úmida e agitada de gente de tudo quanto é tipo, da universidade, da favela ao redor, até alunos de outras instituições que eram atraídos pela atmosfera de escuridão permissiva que mesmo nas tardes mais ensolaradas se fazia presente no bar. Pisar e sentar ali era comprar passagem e carimbar o visto para algumas horas sem rosto e sem voz, bebericando das piores sortes de bebidas alcoólicas que a humanidade já foi capaz de inventar. Talvez um pouco já se sentindo sem opção, foi o próprio Curi que fez sinal para o ônibus interno que nos desovaria na região do mangue.
Sentando numa mesinha, a água do meu gelo já daria para alguém escorregar no chão, mas eu sentia que o Curi ainda estava um pouco acanhado. Eu fiz o sinal do DBS para o coroa do bar e puxei um papo:
—  Curi, é verdade que a Maria Cláudia foi casada com o Marco Antônio?
—  Quê?
—  A Maria Cláudia de Filologia.
— Que tem?
— E o Marco Antônio de Grego I.
Ele riu e puxou a gola da blusa para cima com as duas mãos:
— Vocês são danados. O outro menino não vem? Seu amigo?
—  Não vem, tem show hoje.
— Eu convidei uma outra aluna pra encontrar com a gente. Mas não sei se ela vai aparecer. Será que ela já tá lá no terraço?
Eu dei de ombros:
— Vai saber. Se tiver, ela espera. Ou vai embora.
Ingerir um gole sequer de DBS ficava no limiar entre o suicídio e a abertura sem volta das portas da mente. O drinque é composto por uma bombástica mistura de destilados de baixíssima qualidade e, quando servido com duas pedras de gelo sujo, é o caminho ideal para anunciar uma noite de reflexos lentos e sinapses frágeis. Foi depois de duas ou três doses que o Curi se sentiu mais em casa:
— É um luto salutar.
— O quê?
— Relembrar o preto nas sextas.
— Bicho, como pode ser bom pra você ficar deixar o acontecimento grudado na tua memória?
— Nananinanão. As pessoas têm memória curta, Angelo.
— Mais um motivo pra você se desapegar, não?
— Aí que tá, não. Que eu vou esquecer, isso é certo. Depois da morte, a coisa mais certa na vida é que a gente vai sempre deixar as coisas pra trás. Na bíblia deve ter uma fala ou outra sobre perdão — Ele parou para um rápido arroto —, só que isso é perda de tempo.
— A bíblia ou o perdão?
— É perda de tempo. Eventualmente, tudo fica pra trás. Então, o quanto você se agarra ao que aconteceu, dor ou não, você tá celebrando. Celebrando tua vida.
— Você tá esquecendo a passos lentos, então?
— E enamorados — ele completou, estendo uma dose para um brinde sem volta.
O sol já estava na linha do nariz, eu pedi a conta e levantei de um salto. O Curi insistiu em pagar, mas eu expliquei que a gente podia pendurar na minha conta, eu me virava com o Elias depois. A gente se olhou, ou tentou se olhar de frente, e nem por um segundo eu senti uma fumaça de hesitação, muito pelo contrário: estávamos calibrados, e eu sentia dentro do meu estômago que o Curi estava era querendo festejar o horário de verão tanto quanto eu.
Chegamos no prédio da reitoria, aquela calma singular de um edifício público vazio. Eu ia passando pelo saguão principal, com um pé direito infinito, e olhando os avisos nas paredes, me perguntando se algum daqueles recados sequer era daquele ano, se você acha que entrar num DETRAN hoje é conhecer de perto as estruturas de uma máquina do tempo, você não saberia explicar a sensação de sentir que algo parece ser do passado mesmo em seu próprio momento. Eu não me lembro de qualquer vez ter atravessado aquele saguão, subido pelas escadas e visto um pedaço da cidade universitária — e sem ensino médio —, sem perceber que eu não sentia um clima de modernidade e contemporaneidade, como se fosse sempre a mesma sensação arcaica, como se o Rio de Janeiro inteiro fosse o Riô de Janerrô para sempre, uma cidade construída em cima de um futuro asfixiado, com concreto e tijolo do passado, uma celebração de erros e descasos a serem eternamente reescritos por diferentes autores.
Eu abri calmamente a porta do terraço e gente se assentou perto da caixa d’água, o restinho de luz do sol terminando seu turno para ir descansar. A essa altura, já não havia mais cerimônia entre as duas almas errantes, e eu comecei a pensar que o Curi poderia me ajudar com um receio ou outro que eu tinha na época.
— Curi, qual é a sensação de passar dos trinta? Tipo, como é olhar pra trás e pensar no que você fez e deixou de fazer, o que é a sensação de ter dado certo ou não, essas coisas?
Ele estava deitado no concreto com as duas mãos atrás do pescoço:
— Taí. O que você responderia se o seu eu de dez anos atrás te fizesse a mesma pergunta, mas sobre os vinte anos?
— Eu vou ter que acender um pra isso dar certo.
Eu puxei o baseado da orelha e sentei do lado dele. A troca de energia estava sendo fora do comum, principalmente considerando que, antes daquele dia, nós éramos simplesmente um aluno e um professor que nunca haviam trocado mais que duas palavras. Eu tinha o baseado pendurado na boca, a caixa de fósforos já em mãos, quando olhei pra trás e vi a cena que vem com o nascer do sol todo santo dia, tão certa como a dor no testículo: o Curi, deitado, insustentavelmente leve, traçando uma linha indelével de tranquilidade por sobre a figura de São Sebastião, recebendo resquícios de um dia de verão nas lentes dos óculos, refletindo, ele e sua armação, o laranja de uma alma colorida vestida em roupas pretas, um gregário tímido, de uma inteligência admirável e de um gosto questionável para roupas, isso em um tempo em que nem se ligava muito para isso. Eu acendi a perna de grilo e deitei ao seu lado, sentindo que a noite seria quente o suficiente para me fazer suas nas costas, se eu ficasse tempo demais encostado naquela superfície que recebera agrados solares durante todo o dia. Eu estendi a erva para ele, que, sem qualquer cerimônia, deu-lhe um puxão digno de um mergulhador prestes a conhecer a intimidade dos corais, das anêmonas e dos peixes-palhaços.
— Ôooo, Curi! Pega leve, bicho! — eu disse, com a fumaça dentro do peito.
— Você devia ter dito isso antes de 4 doses de WD-40.
— DBS.
— CBD.
— Quê?
— A gente tá dizendo siglas aleatórias? CDB, ué.
— Não, bicho, a bebida.
— O que tem?
— Esquece e solta a bola, delegado.
Embora se tratasse de um fininho, era coisa importada, coisa que somou com o tal do DBS e deixou a gente um par de geleias fora do pote, esparramado e iluminado pela luz de estrelas que já nem existiam mais, como a gente e o Rio não existiríamos um dia, ou nunca existimos, dependendo da distância dos olhos para a linha do tempo.
— Eu acho que eu diria que a vida é uma sensação contínua.
— É por isso que você fica continuamente chapado — ele afirmou, mas algo no seu tom me fez achar que ele estava perguntando.
— Não. Bicho, isso é o que eu diria pro meu eu de dez anos atrás.
— Ah! Claro… Talvez seja por aí.
— O que cê acha?
Ele fez cara de pensativo, mas eu sabia que não tinha meia dúzia de funcionários dentro do escritório da caixola dele. Se eu tivesse a capacidade de enxergar ali dentro, eu chutaria que teria uns neurônios dando umazinha em cima da mesa da repartição, enquanto, lá fora, um pessoal fumava e esperava o último ônibus da noite. Os dois lá de dentro tinha que se apressar, ou iam ter que dormir no escritório. Quanto a mim, eu me lembro que alimentava uma paranoia pessoal. Eu me questionava sobre aquela conversa de que todos têm um professor na faculdade que tem um impacto enorme em suas vidas, aquele mestre que deixa ensinamentos que mudam a história de um aluno, aquela presença única e irrefutável que, ao nos fazer enxergar dentro de nós, nos recomenda caminhos e mapas mentais tão naturais quanto inesperados. Meus olhos navegavam da gravata de patinhos do Curi para suas fartas bochechas — enquanto ele se mijava de rir, subitamente —, e eu me perguntava se aquele baseado era o grande marco das minhas relações acadêmicas e se aquele cara era a grande figura que eu teria como memória ilustre dos meus tempos em Letras. Eu soltei um curto riso sincero ao concluir que nada talvez fizesse mais sentido do que isso. E comecei a refletir sobre o que seria da vida dali para a frente, já que a lua seria sempre a mesma, vitoriosa sempre nessa roleta russa, mas eu teria em breve um canudo, um canudo com o qual não saberia o que chupar, além de uma pistola que eventualmente daria um tiro em alguém.
O Curi seguia gargalhando histericamente, seus gritos ecoando pelo vácuo do terraço da reitoria. Lá de cima, agora o céu negro, eu via todo o gramado do campus, os locais secretos onde os playboys paravam os carrinhos dos papais para transar com as meninas, muitas vezes sem consentimento, eu via os pontos escuros próximos ao alojamento, perguntando a mim mesmo o que estaria sendo escondido, na verdade, sob os feixes de luz da região. Eu via o buraco negro indecifrável do Bar do Mangue, vibrações coloridas saltando para fora da redoma, mas sendo puxadas de volta pelos gritos das crianças, essa órbita elíptica indicando que ali mesmo, debaixo dos toldos, havia pequenos sóis de gente, iluminando as almas dos seres ao redor e disparando raios tão intensos que lá da Muralha da China se poderia ficar cego. O Curi parou de rir e fechou a cara, com os olhos assustados:
— Eu acho que é por aí. Eu acho que não faz diferença mesmo, a sensação de ser o seu eu é sempre igual, a gente fica olhando pra frente, achando que vai olhar pra trás lá na frente pra ficar analisando, e a gente fica pensando que certamente vamos achar que é preto ou que é branco, do tipo, “dei certo” ou “dei errado”, o que isso sequer significa? Eu dei errado por ter sido abandonado pela minha mulher?
— Eu achei que vocês tinham se divorciado.
— É só um outro jeito de falar.
— É, mas digo, divórcio meio que dá entender uma coisa consensual.
— Não, bicho, não dá, não.
— Não, colé, Curi, tudo bem, bicho. Mas eu acho que o mais cedo que você ad—
— Ângelo, não — foi a primeira e única vez que o senti severo —  Quer dizer... Olha, eu vou te falar, metade da vida é você saber fingir. Eu te juro, metade da vida.
Eu nem quis questionar muito, fiquei mais curioso para saber:
— E a outra metade?
— Que tem?
— Ela é o quê? Se metade da vida é saber fingir, sobra uma outra metade.
Um barulho nos assustou e ambos saltamos pálidos, olhando em direção à porta do terraço. Eu quase quis engolir o baseado, mas me lembrei de uma história dum camarada chamado Fred, que, dizia-se, havia engolido um baita dedo de gorila para se livrar de um flagrante e ficou chapado por duas semanas e meia. Não me leve a mal, não que eu não quisesse essa onda, mas eu não consigo andar na rua direito quando fico muito doidão. Num movimento só, a porta do terraço foi aberta, e ela adentrou a noite límpida, com cara de atrasada, deslocando as marés do meu sangue. O Curi levantou, abriu os braços para o universo e gritou, os botões da blusa de patinhos quase inteiramente abertos:
— Menina! Eu tinha me esquecido de você.
Até hoje, mesmo depois de todas essas décadas, junto ao meu testículo e ao Curi deitado no terraço, só me vem uma palavra à cabeça, em resposta a esse grito: “Como?”.
SENDO EU, SENDO OLIVEIRA
Agora eu era o Oliveira e o Oliveira era eu.
Houve mesmo um tempo, coisa de um ano atrás, deve ter sido, em que eu era eu e o Oliveira era ele, mesmo que, já na época, como ele chegou antes, eu mesmo já fosse o Oliveira da vez, e ele, na verdade, não me fosse no momento, mas fosse, isso sim, o Oliveira que eu viria a ser, coisa mesmo de um ano depois, se eu não me engano.
Eu até posso estar enganado, mas aí vai ser muito mais na questão da medida do tempo do que nas personagens em si. Não é que eu seja realmente dessas pessoas que fazem leituras perfeitas ou pretensiosas de quem são os outros e elas mesmas, mas é que o caso é de uma clareza espantosa, e muitos, decerto, diriam que se trata de um lance espalhafatoso.
Enquanto era eu o Oliveira da vez, como eu disse, em algo há um ano, a Nina era minha, e eu dela, muito mais eu dela do que ela minha, e, até, incrivelmente, muito pouco eu de mim, e a Nina sempre foi, e sempre será, a Nina, da Nina, ao menos nessa história aqui e, imagino, nas cabeças de nós três, que, na verdade, hoje, nem somos nós três, ou nunca nem fomos, hoje em dia somos eles dois mesmo lá e eu por aqui. Ele sendo eu, lá, com ela, que ainda é, e sempre será, Nina, e eu, aqui, sendo um ele que, provavelmente, Oliveira não gostou de ser quando o foi, porque eu, categoricamente, posso dizer que muito me incomoda sê-lo.
Quando éramos eu e Nina, eu me lembro, com a clareza de um bom dia na Tijuca, do vocativo que ela usava para ele, no diminutivo. Então, Veirinha, não vou conseguir ir ao seu aniversário porque vou estar viajando para o réveillon, Veirinha, acaso você anda bem, como vai essa cabeça, Veirinha, que bom que você tem lidado com o meu novo amor com tanta maturidade. Veirinha, o mundo, ele, miserável, dá voltas, e a gente se deixa rodar. Curioso que ele nem fizesse a menor ideia de que, eventualmente, seria de novo ele o amor de Nina, o que o transformaria em mim, enquanto, na época, eu ele ainda era, e ele, bem como eu já disse, já era o Oliveira que eu viria a me tornar com relativo, de início, desgosto e, eventual, do meio para o fim, que, na verdade, nem existe ainda, melancolia.
O lance dessas trocas é que nem eu nem Oliveira, pelo menos isso é o que eu penso, tivemos tantas escolhas no meio do caminho, na verdade, não, não tivemos. A despeito de todas as leituras que já fiz acerca do amor romântico como construção social e fruto industrializado fadado ao fracasso dentro de um novo paradigma de relações, é, ou, ao menos, devo dizer, foi, na prática, de fato, impossível me desvencilhar das dores te ter desvirado eu mesmo, que na época já era ele sem saber, para virar o ele que eu via só de fora, enquanto ele virava eu, tudo por conta de Nina, que, ao cabo dessa vida, terá mesmo se saído como uma apaixonante mulher, que transforma os homens dela nos homens dela, que se permitem, não sei julgar se isso é positivo ou é só isso mesmo, deixar trocar por uns e outros, ainda que todos os outros e até os uns sejam muito poucos, e todos muito parecidos. Eu nem distribuo os acontecimentos com a ideia de apontar culpados, até porque essa vida, nos parâmetros que até hoje conheci, não tem um certo ou errado, nunca terá. Talvez seja por isso que todo mundo discute tanto.
Eu andei, enquanto Oliveira que ainda sou, e confesso já estar me acostumando à pele do cara, que, eu não duvido, teve facilidade em vestir a minha, que é tão quente e amada pela Nina, o que torna a vida mais fácil, eu admito, por uns ônibus, uns dois ou cem nos últimos meses, desde que ela se foi, ou voltou?, e me tenho entendido bem confortável, não só vivendo nesses ossos, que já não sei se são meus, dele, dela ou nossos, mas, também, assistindo aos dois cultivando, replantando, reencontrando, nem sei que diabos é aquilo, um amor que, sim, ao menos de fora, parece muito bonito. Tem-me feito remontar àquela canção do Chico, deus, eu detesto citar Chico, porque eu acho que poucas citações conseguem ser tão piegas, e, na verdade, talvez citar alguém seja mesmo uma atividade ausente de nobreza, que diz que, um dia, mergulhadores, num Rio de Janeiro submerso, encontrarão flutuando dentro das águas um amor deixado no passado por alguém.
O meu conforto em ver os dois mergulhando e encontrando um amor que era meu é saber que ele já fora dos dois, também, não que isso signifique que a eles pertence, porque o amor, mas o amor de verdade mesmo, desse que, na verdade, a gente não sabe definir, acho que não pode ter dono, porque ele sequer existe. O que existe, e, por favor, não me entenda negativo ou qualquer coisa do tipo, é um encontro entre as fomes, as vontades de comer, os desejos e as carnes. E é incrível.
Nesse momento, eu durmo e acordo tranquilo como Oliveira. Incomodado, mas tranquilo. É. Eu durmo e acordo tranquilo como Oliveira, como ele deve estar fazendo como eu.

VOCÊ NÃO SAI DO MEU ARROZ COM FEIJÃO

Já faz coisa de uns cinco minutos que não a vejo. Deve ter se metido escuridão adentro. Eu vou atrás dela, isso é certo. Mas algumas visões precisam ser interpretadas, antes de qualquer coisa. Não foi por isso que eu vim? Vou apertando meus olhos, tentando enxergar melhor. Acho que estou ficando velho.
É noite, isso é nítido. Ou trata-se de um improvável eclipse total do sol, embora eu não creia que seja de se dramatizar tanto o que pode ser simples. A luz que molha a calçada é de um cinza que beira um azul, provavelmente fruto de uns postes esbranquiçados beijando o cimento. Apenas uma coisa na esquina foi de fato feita para chamar a primeira atenção, e é o bar. Ou lanchonete, não sei. Daqui, vejo apenas quatro pessoas: o par — um homem de terno e chapéu, uma mulher de cabelo vermelho e vestido ruivo —, bem de frente para mim; o rapaz do balcão, não sei se careca ou loiro — a parede atrás dele é amarela e sua pele é branca —, vestindo uma dessas alvas roupas típicas de garçons de lanchonetes norte-americanas, aquelas da primeira ou segunda metade do século passado, com um chapéu pontiagudo; e, por último, o homem apoiado no balcão, de costas para mim, vestindo, ele também, terno e chapéu elegantes, embora mais misteriosos, entregando uma leitura que não me possibilita compreender sua realidade por completo. E é isso. Não. Ao longo do polido balcão de madeira, um ou três saleiros. Por fim, atrás do par, dois tonéis prateados e tímidos, sabe-se lá de quê. Daqui, é impossível saber o que cada um bebe.
A cena como unidade visual não me seria de qualquer incômodo. Nada do que se possa reclamar de se estar admirando enquanto se espera... o quê? Uns dez minutos já? Entretanto, é o homem de costas. Ele me arrepia a espinha. É o que me mantém estático frente à cena, justamente a fração escondida do que agora contemplo. Uma face misteriosa pela inequívoca escuridão que só as costas de alguém podem carregar, costas que ele oferece à rua escura pelo vidro do bar. Ou lanchonete. Da mesma forma, é a rua atrás da esquina que me intriga e me distrai. Ausente e escondida, iluminada pela sobra das luzes diagonais das paredes amarelas, muito mais do que pelos postes brancos, que dirá luas prateadas. Ao passante ordinário, eu percebo de tanto em tanto, a cena é quase comum e desperta um casual “Como pode, né? Os detalhes...”, a surpresa típica de observar algo novo, ao mesmo tempo em que se sente que, se houvesse mais tempo hábil, seria possível ter produzido algo igual ou mais valioso com as próprias mãos. Mas a mim, isso não. Eu sei que é no que não se revela que moram as verdadeiras intenções dos signos. É no que se vê e não se enxerga, nesse desejo de esconder a revelação que é preciso ser feita, nas sombras que as luzes amarelas formam quando se projetam discretamente para a rua. Que me importam a ruiva e o de chapéu? Eles podem ser foragidos, mirabolantes de um conluio para assassinar um poderoso homem de joias. Talvez sejam um casal em crise, numa noite pela cidade, em busca daquilo que um dia os definiu. Tanto faz. O loiro ou careca, ele está ali todo santo dia, já viu e ouviu de tudo, eu aposto. Todos os três são muito sem graça, porque são óbvios em suas infinidades. Paródias inúmeras podem ser redesenhadas a partir de suas figuras. Mas o maldito homem de costas, o maldito homem de costas, mirando, quem sabe, a rua perpendicular? Quem é esse cara e o que ele faz ali? Bom, a gente nunca sabe exatamente o que um autor quer dizer com o seu trabalho. Essa é grande beleza da arte, certo? Ou a ironia. Ou são sinônimos?
Olho mais uma vez para o relógio. Já faz vinte minutos que não a vejo. Ela se enfiou mesmo escuridão adentro, para nunca mais. Não sei se conheço a peça ainda, mas posso imaginar, assim como o fiz com o bar, o par, o garçom e o homem de costas. Deve estar abordando desconhecidos nas salinhas de exibição de obras audiovisuais, indagando o que é que sentem quando veem aquelas duas grossas linhas amarelas imperceptivelmente se tornarem verdes. Creio que seja um bom momento para seguir meu caminho e admirar o que quer que esteja disposto; tenho medo de enlouquecer se seguir me questionando sobre a vida dessas aves da madrugada.
Sigo pelo final da primeira metade do século passado, em busca de cachorros jogando pôquer. Eu penso que talvez esteja no ano errado, fora de época, quando, opa! Vejo uma cabeça, a sua cabeça, anunciando-se a alguns metros, paralela ao chão, saindo de uma pilastra apenas o suficiente para que eu possa ver sua careta de provocação. Que tenha início a caçada.

(UMA SAUDÁVEL E BREVE PONDERAÇÃO, POR MEIO DAS BASES NADA CIENTÍFICAS DE UM NARRADOR ONISCIENTE

Uma das atitudes mais comuns entre jovens que creem estar se imergindo em um dos inefáveis lagos do amor — pois estes são vários — é a de agir como crianças que correm com tesouras na mão, ou crianças que comem chocolate em demasia na páscoa, ou crianças que não conseguem formar uma fila indiana antes do hino nacional. Uma das manifestações mais clássicas de tal comportamento é a corrida entre os inferiores e engessados seres desapaixonados que se dispõem ao redor — pois nunca ninguém ama tanto quanto a gente. É uma forma jocosa e debochada de gritar ao mundo que se está sentindo o ápice da juventude dentro das veias, como se fosse finalmente descoberto para que a vida lhe deu tanta energia, por que diabos deus desperdiçou tanto tesão em estar vivo em seres tão desprovidos de sabedoria quanto os jovens. Amar é mais do que cansativo; é diligente. É por isso que talvez apenas o jovem ame de fato, e o resto das pessoas, no resto dos anos, fique com alguns traços de simpatia apenas, o que pode ser quase lá. Nada disso, contudo, precisa ser visto com melancolia. O amor, especialmente entre jovens, tem seu valor exagerado em leilão. Ele é só essa sensação de estar correndo sobre o tempo, livre e nu, perpassando todas as décadas anteriores e as seguintes, ao mesmo tempo em que se caminha numa esteira, dentro de uma sala com um projetor que apresenta campos floridos numa tela branca, com eletrodos presos ao peito. E o jovem não é senão um filhote de vira-lata, um ser que, se largado num chão liso, patinará até dormir, acordar e patinar novamente. Ser jovem, e não me refiro ao espírito, é quase literalmente ser o próprio amor engarrafado, à espera de quem tire a rolha e se embriague, desconsiderando a secura e o vômito do dia seguinte. O vômito de um, a secura de ambos.
E assim se segue. É na esfera do amor que residem os mais profundos sentimentos, é nela que tais fatalidades se apossam do ser, as sensações positivas e negativas, o parto e a amputação, o pasto e a fermentação, o reconhecimento da própria existência e, em sequência, da agora inexistência de algo tão inexplicável que, tantas vezes, faz com que a liberdade desista de guiar o povo, desça do morrinho, largue a bandeira no chão e renuncie a qualquer luta que não aquela por se manter em constante contato com o objeto amado.
Quando penso neste rapaz e nesta moça brincando, eu, na verdade, penso em todo casal do planeta que um dia já se aventurou pelos arcos do envolvimento, em galerias, cafés, bares e favelas, posto que o coração é incontrolável e exerce a mesma função em qualquer parte do globo. O ocular e o terrestre. Assim, quando — e isso é constante — reconto esta história, sendo eu quem fala, ou eu quem diz o que foi dito, mudo os nomes das personagens, ou não as dou nomes, mudo a localidade, mudo os diálogos, quase sempre não minto e, por vezes, até desisto de escrever, tudo isso como já fizemos eu, você, todos os autores, pintores, arquitetos, engenheiros, médicos e simples transeuntes da história da humanidade, porque tudo o que já se fez e disse dentro desta bola imensa a que chamamos de lar foi em nome do amor, do Taj Mahal ao onze de setembro, de Platão a dois jovens fictícios numa galeria de arte que eu realmente visitei dois meses atrás.)

DE VOLTA A “VOCÊ NÃO SAI DO MEU ARROZ COM FEIJÃO”

Nunca um homem viajou tão velozmente através dos séculos. Não sem causar certo incômodo aos demais, é claro. Ela é gatuna, inteligentíssima, será arquiteta um dia, mas eu sou criado nas ruas, eu não nasci já no meio de Rembrandts e Monets (sempre os confundo com Mondrian, é tudo “ã” e “ê”), eu fui obrigado a ler um bocado de coisas para finalmente ousar pensar que eu estava passando perto de entender qualquer centímetro do que vejo. Assim, ela não me escaparia, isso seria impossível, eu passei a vida correndo atrás de ônibus.
Eu a perco pelas contemporâneas. É uma corrida maluca, e eu me permito congelar o tempo por um segundo, para admirar três quadros que se colocam em sequência, todos completamente pintados por uma única cor, respectivamente: preto, branco e cinza. Coloco as mãos nas cadeiras e me levo ao pensamento médio típico, aquele que ri e diz que meu sobrinho faria melhor. Eu rio. Nem tenho sobrinho, mas essa fala enche a boca. Aproximo-me da pequena placa ao lado da trinca e leio que o tal homem — são sempre homens. Só são mulheres quando mostram mulheres fora do padrão em que os homens apresentam as mulheres — pintou cada um dos quadros com a mesma dinâmica: pôs-se de frente à tela de pintura, bem no centro, e esticou os dois braços com pincéis nas mãos. Os pontos onde suas ferramentas tocavam a tela, para cima, para baixo e para os lados, eram os limites da área a ser pintada por cada uma das três cores. É ou não é genial?
Sigo minha caçada e penso em coisas incríveis. Penso que, mesmo enquanto corro, mesmo enquanto almoço, mesmo enquanto sento para fazer qualquer coisa distante dela, eu sinto seu cheiro e não quero pensar em nada que não seja o seu corpo despido, a única obra de arte que não me requer nada acima da minha vil imbecilidade para desfrutar. E não deverá ser tido como um sentimento menor, já que essa tara exclusiva e cega só poderia ser fruto do tal sentimento universal aos humanos.
A galeria toda tem uma iluminação péssima, e eu começo a ficar um pouco cansado. Não porque esteja correndo muito, mas porque vou ficando tonto pela presença de tanta ideia ao meu redor, ao passo em que sinto que posso explodir a qualquer segundo se não a tiver em meus braços. É quando paro, ofegante e com as duas mãos nas coxas, que sinto um toque nas minhas costas.
Antes de me virar, eu mantenho um pouco do meu espírito imaginativo. Gostaria de poder ter uma plateia que me escutasse sobre as obras, que pudesse abrir seus ouvidos ao que acredito que tenho a dizer. Teria, então, alunos e alunas a me ouvir, um holofote bem branco cegando meus olhos e alimentando a minha alma déspota. Real ou não o seguinte ato, neste momento eu sustentaria um olhar levemente vago ao horizonte direito, para em seguida soltar o ar numa risada inteligente, com aquela cara de “tive uma sacada que não fora pensada previamente”, e introduzir um discurso com um invejável “Vejam como é paradoxal!”. Se não é disso que o público gosta, não sei do que é. Ela me interrompe, colando meu corpo ao seu:
— Onde você tava? Morri de preocupação — ela diz, segurando o riso.
A partir desta pergunta, poderíamos estar em qualquer lugar, não haveria diferença. Há um momento a dois em que só existe uma localidade, que é o ar onde se deitam as palavras trocadas. A conversa então é intercalada por beijos e eventualmente chega ao ponto que fora meu objetivo desde que marcamos aquilo:
— É como se você quisesse sinceramente me fazer acreditar que me vê em tudo quanto é lugar.
— Aliás — eu respondi, ilustrando meu melhor sorriso — Você não sai do meu arroz com feijão.
— Eu não acredito.
— Não acredita no quê?
— Nesse amor que você fica pregando.
Eu estava prestes a emendar em cena de filme, ela me puxou de volta para cima, pela gola da minha blusa, dando sequência:
— Você ama à moda de quê?
Só me vinha à cabeça Osvaldo Aranha.
— Quê?
— É uma coisa platônica, mais aristo—
— Ah! — Eu bati uma palma — Amo indefinidamente!
— No tempo ou no modo?
Ela é mais difícil que o mais irônico dos quadros.
— Ambos?
— Não pode ser.
Eu deveria ter desconfiado desde o início. Especialmente quando ela me convidou para o museu, em vez de para, sei lá, o novo filme dos Vingadores.
— Como não? Tô aqui, carne e—
— A passagem do amor para a tolerância é insuportável.
Eu cedi ao meu lado mais inteligente, por falta de opção. Desde o primeiro dia, o nosso encontro me parecia do tipo entre pessoas que já haviam passado por experiências o suficiente para saber o que não querem, já que o que se quer é impossível afirmar, dentro dos parâmetros da razão. Eu cancelei qualquer brincadeira:
— E nisso concordamos — disse, exalando um ar pesado — Já estive lá.
Eu tive relacionamentos anteriores que eram muito complicados, mas num sentido pior. Veja, palavras complexas, perguntas incômodas, obras de arte novas, isso há de ser decifrado. Quanto mais a mente se vê face a face com tais artefatos, mais capciosa ela se torna. Entretanto, sentimentos exagerados, visões irreais de romances, a dificuldade mesmo em se aceitar qualquer peido alheio fora do lugar… nada disso me parece solucionável.
Ela seguia numa teorização sobre casamento e cultura, quando eu gentilmente interrompi:
— Você me ama?
Percebi pelo seu rosto que ela fez uso do mais belo raciocínio moral:
— Não.
Talvez ela seja perfeita.
VOCÊ MORA MUITO LONGE
É duro querer falar contigo e sentir que eu não devo, e eu não devo mesmo, porque eu não posso mexer com o coração de uma pessoa, até porque eu acho que ainda nem aprendi a mexer com o meu, se é que a gente tem que aprender mesmo a mexer com o coração e não ele que mexe a gente do jeito que quer, ou então só não é pra aprender e ponto, às vezes, e essas são muitas vezes, dá mesmo vontade de questionar as tias da escola, eu faço tanto isso, eu acho que elas ensinaram erroneamente a forma como as sinapses acontecem, porque eu tenho certeza que passa por alguma coisa de dum átrio ou dum ventrículo romântico que não tá na anatomia segundo os livros nem no evangelho segundo jesus cristo, e deve ter um pedaço de coisa ali dentro que o cientista acha que sabe o que é, mas na verdade, se nem os maiores poetas souberam descrever, quem são os doutores e os químicos e físicos e até geógrafos pra cagar qualquer regra, mesmo que embasada, muitas vezes me parecem mais é embalsamadas.
Eu acho que é pegadinha da vida você ter aparecido pra mim e eu pra você nesse instante, e, na verdade, se a matemática dos encontros for mesmo desse tipo aí de resultado, provavelmente os últimos vinte e cinco anos têm sido de fato uma pegadinha, porque, se você tiver vontade de enxergar assim, cada pequeno passo que cada pequeno de nós e aqueles pequenos ao redor de nós demos nos trouxe pra condição que a gente tá hoje, ou seja, aquelas peças de ar condicionado que eu comprei com o meu pai quando tinha 12 anos, o meu primeiro beijo, a copa do mundo de 1990, eu nem vi essa copa, o meu primeiro baseado, aquele dia em que você deve ter rido de algo na rua de forma meio aleatória e depois lembrou dentro de um busão, você pega mesmo muito ônibus, nós dois já andamos muito de ônibus, a primeira vez que você comeu açaí, eu nem sei se você gosta de açaí, nunca fui muito de doce, e de qualquer forma todo arrepio da nuca e vontade de morder, morrer, matar e viver das últimas décadas nos arredores de América Latina que nos pertencem nos trouxeram pra cá, nesse momento em que eu tenho vontade de falar com você e perguntar como foi sua semana, mas sinto que não devo, e não devo mesmo. E eu não posso dizer que não penso, que não lembro, de dois corpos afogados numa coisa meio birita meio melhor sexo de todos, tem uma coisa ali, sim, e diabos, eu não sei o que aconteceu comigo parece que deu tilte ou tilt no meu coração, acho que essa palavra é americanizada, e que merda, eu não quero me sentir usando você para me sentir ficando melhor, e não quero que você sinta saudades nem me quero sentindo saudades de nada, e, por algum motivo, eu choro. E choro não só por mim, choro quando leio, quando ouço, quando escuto, quando gozo. Eu acho que a vida me deixou triste e não tô sabendo muito o que é. Mesmo que essa tristeza ande lado a lado com alguns dos dias que eu acho que foram alguns dos melhores da minha vida, com algumas das melhores risadas. A vida é a coisa mais louca possível, palmas para quem criou essa porra.
Eu fico, sem frequência determinada e nem quero, lamentando um pouco que não dê pra existir um espaço mais fácil entre nós dois, já até enfiei na minha cabeça que você mora longe demais, numa tentativa infantil de justificar um discurso, acho que tô passando por um dos momentos mais egoístas da minha vida, a ponto de ter começado um texto para dizer a você o quanto agradeço ter te conhecido, e como, às vezes, e essas aqui não são tantas vezes, o gosto bom das coisas fica meio que na maneira como elas nunca se concretizam, porque a gente fica sempre na hipótese, e se eu tivesse voltado naquele dia, e se tivesse pensado duas vezes ou agido duas vezes, e se eu tivesse simplesmente dobrado meus joelhos, e acabei escrevendo trocentas linhas sobre nem sei o quê, tenho lido muito Cortázar, e ele influencia minha escrita, mas também a minha cabeça é, ou, ao menos, tem sido, um turbilhão e egoísta porque nem sei o que quero te mandando isso, minha goela tá entalada.
Eu temo gerar de duas uma, ou um caminho em que o meu ego acabe sendo o ponto central desse texto, nossa, realmente, quanta coisa interessante, você é mesmo um cara incrível, tá de parabéns? ou um caminho em que isso gera uma sensação sentimental maior do que é ou maior do que deve ser, e onde foi, onde foi que esses putos, algum puto o deve ter feito, não é possível, escondeu o manual dos certos e errados da vida?
Tem que existir, não é possível que esteja todo mundo tão às cegas assim.
Eu acho que devo ter te prometido ler ou escrever algo meu, é de meu feitio fazer isso, quase um cartão de visitas ou postal do que é esse cara, bom, são 9 e meia e eu queria te mostrar isso aqui.