Comum mesmo

todas as madame,
os cara que ganha canne.
quem come sushi de kani,

sopa de edamame,
colherzinha de danone,
café da manhã em Parrí.
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pelas venezas das tubulações,
pelas veias das cidades-canção,
por tudo que é caco ou difamação,
por todos os sacros e suas monções.

corre o mesmo objeto de indesejo,
fruto da mesma sorte de ensejo,
embora com mais ou menos fibra.
embaixo ou em cima do concreto que vibra.

todo mundo faz feio e igual,
mas só alguns muitos poucos são tratados como o produto tal.

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Há diferença entre planetas e mundos

Eu quis, um dia, tolo, desejar
que frações dela ao mundo se jogassem,
e, assim, todos que dela partilhassem,
soubessem por que ando a desandar.

Eu fui, tão logo, a todos preparar,
para que a um caos maior não se entregassem,
quando do céu anil se atirassem
luas que fazem um ser tresloucar.

Quando nenhuma lua se viu vindo,
teve-se tal anúncio derradeiro:
havia nova luz no céu surgido.

O desatino fora meu, primeiro,
e deu-se sem que fosse percebido:
era ela, por si só, um mundo inteiro.

Que possamos, assim, inverter tudo,
que se dê romântica subversão.
Do amor de métrica e cânone escuro,
percebo lúcida alucinação.

Dizque é tal do amor que nos agiganta,
mas gigantes éramos ambos sós.
Ora, então, essa saída me encanta:
o amor descansa em cada um de nós.

De tal forma que, já aqui, agora, em letras, pensava eu, fatais,
sinto-me desconexo do ser de linhas atrás.
Irresoluto, de fato, porém sem grandes rugas,
afinal, de um tanto me despedi em tal falha fuga
do amor clássico, moderno, fugaz e gourmet,
dos livros, cinemas, caixas de TV,
de ilhas, tétricos, bolas de tênis,
eu e você,
você e eu,
eu e você. Então, quer dizer, na verdade, que
o amor não é o que nos faz gigantes, mas, talvez,
tudo o que nos faz gigantes é amor? O amor?
Aquele mesmo que bateu à porta junto contigo.
Ou já vivia comigo antes, no segundo em que bateste à porta?

Gigante, passeio pela cidade sem ninguém me ver.
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A etimologia da saudade
a saudade
deve ter sua origem
naquele dia lá
naquelas pedras lá daquela praia lá

ou no barulho dum primeiro ônibus na avenida com sol

mas eu não falo latim
eu mal falo português
então me limito à saudação trivial
só pra esquecer o que deveria vir em seguida

ou pra ficar agarrado a esse sentimento circular

até por isso
nunca se pode de fato matar a saudade
ela nunca está conosco
vive naquele dia lá naquelas pedras lá da praia lá

ou no pior dos casos um pedacinho com um e outro pelo mundo

segundo a wikipédia
comemora-se o dia dela
ao trigésimo de janeiro
lá no meu país

mas a gente sabe que o dia da saudade deveria ser no trigésimo do segundo mês

isso tudo se eu estivesse
falando de uma palavra
de sua nascença, sua adolescência
seu jeito irreversível de existir nos poemas

de outro modo eu não faço o menor sentido, faço?

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O pulo do gato

O pulo do gato, eu vi
é inexistente.
É de uma casa para a outra, para a outra,
para a outra e depois.

Com olhos de dia,
de hora,
de noite,
lá fora.

Pulando a cerca,
o telhado,
a seca,
o molhado.

Ele pula, pula,
cai,
dá a volta pelo mundo,
mas sempre cai, fofo e barrigudo,
de volta,
bem na frente da tigela de atum.

O gato pega barata, pega até passarinho,
mas ele não sabe nadar.
Então como é que come atum?

É a Maria
que vem, todo dia,
e serve o peixe
pro gato
que come igual gente,
que pula, pula
e não sai do lugar.

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Valha-se

O ser humano é o único animal que conta moeda
Desenhando projeção em vil metal
O único ser que prescreve remédio
Que se algo não mata, morre de tédio

É única besta clara o bastante de si
Amante do que rasga, algoz do que faz rir
Entre balas e lotéricas, largada à sorte
Vive da vida eterno esboço da morte

Olhando para o céu, antolhos hirtos
Sorriso que esconde seus lumes aflitos
Enquanto à mãe sempre um incorrigível
Vassalo fiel de um autor invisível

Irônico fora um profético Drummond
Num outrora distópico 84
Letrando os feitos dum homem bom
Que esconde o pau, mas paga no ato

Malogrado o tempo que passa sem direção
Ainda hoje, o difícil é ao carme dar recheio
Malgrado uma ou outra correta pura predição
Apostar no pior é acertar em cheio

E mares e pedras, de janeiro a janeiro
"Quem são esses que nos calam as vozes?"
Queria eu lembrar ao mundo inteiro
Que, no fundo, no fundo, as árvores somos nozes

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Setembro Amarelado

as dores da alma eu não sinto, eu vivo.
se fosse pra sentir dor, eu ia ao dentista,
limpar os tártaros dos meus dentes podres.
dor é coisa pra se viver.
é que cê sabe como é:
dente podre todo mundo olha, julga e não beija.
a mente podre, essa passa suavemente.
ninguém fala nem reclama nem estranha
nem deita
nem tchum.
mente podre só dá bafo na telha de quem sofre.
pra muitos, setembro amarelou feito dente, não sol.
e eu me sinto rosa,
meio choque,
meio boto.
de dia nada,
de noite, outro.
mas sempre colorido.
do jeito que for, têm cores os meses, têm cores os anos, têm cores as vidas e os picolés da Kibon;
mas bermuda quadriculada com camisa quadriculada sempre será passível de julgamento alheio. 
isso quando não te leem as conversas pessoais do celular no metrô!
saudades de aprender a ler. palavra era mistério a se decifrar. hoje, as danadas é que cismam em querer me desenhar.
sambando na minha cabeça sem metrônomo.
e eu deixo.

a vida é mesmo um dia após o outro.

Referencial

Toda condição de movimento depende de referencial
A mim, o avião congela no ar, quando a mil por ele passo
É beija-flor com asas de metal
Suas flores os prédios, namoros, o sideral espaço

Quando digo que na rua estou contente,
é porque, da minha esquina a um país outro,
sempre quero mais um pouco
Apaixono e sigo em frente

Todo domingo de retorno não obriga um final
A mim, não caibo em 7 dias, continuo o meu traço
É avião com sede de matagal
Seus passageiros os romances, diários, o tempo escasso

Quando digo que em casa estou doente
é porque, da minha cama a um quarto outro,
o coração alegra pouco
Descanso e sigo em frente

Queria ver tudo de cima:
ler todos os livros, admirar cada obra, fazer a cabeça pensar
Mas sei que é preciso ter calma:
entender o interior, respeitar o tempo, deixar a cabeça descansar

E, entre ovos e galinhas,
já não sei se rua é lar porque casa cansa
ou se casa cansa porque rua é lar

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CO2

não posso começar fogo
sem haver quem assista
não posso cessar fogo
sem haver quem insista

não me queimo
posto que chama
não te queimo
posto que engana

e todo fogo que eu fiz ou vou fazer
foi não por você
mas por sua causa

e toda causa que eu quis defender
foi não por querer
mas por seu acaso

findos os tintos
o vinho e sangue, a vida inteira
o fogo infinito (mesmo todos os fogos o fogo)
no final das contas, sou madeira

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Status quo ante bellum

É a mulher que transa com o ex-marido.
É a cerveja no mesmo bar.
É a dor permanente.

É nova Torre de Babel numa vida digital.
É esquecer que já sangrou.
É o erro inquietante.

É o viciado seduzido que ama a química.
É a Lua, que vive por fases.
É o nó reconfortante.

É a palavra secreta para derreter o outro.
É prazer em cutucar a ferida.
É não andar à frente.

O novo refaz o velho.
O outro será partes do outro.
O íntimo dum passado assusta ou aceita.